“TRAGADA FOI A MORTE PELA VITÓRIA”
28 de abril de 2021

Participantes de Todas as Coisas Boas

(Gálatas 6.6-8)
Rev. Welerson Alves Duarte

Desde o princípio Deus estabeleceu líderes, pessoas que tinham a responsabilidade de conduzir, ensinar, instruir o povo.
Inicialmente os patriarcas exerceram tal função liderando suas famílias. Na sequência, a partir de Moisés, Deus foi levantando homens para liderar seu povo. Profetas, sacerdotes e reis conduziram o povo do Senhor instruindo-os no caminho em que deviam andar. É verdade, porém, que nem sempre estes líderes foram fiéis ao Senhor e aos Seus preceitos.
O Senhor Jesus, em seu ministério terreno, escolheu homens incumbindo-os especialmente da tarefa de ensino. Eles mesmos reconheceram isso pois os vemos declarando o seguinte: “… Não é razoável que nós abandonemos a palavra de Deus para servir às mesas… e, quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério da palavra” (Atos 6.2, 4). Em toda a Escritura encontramos a valorização do ensino já que é através dele que somos habilitados para o serviço do Senhor.
Escrevendo aos Gálatas Paulo os orienta quanto ao tratamento que deveriam dar àqueles que os instruíam na Palavra e desta orientação podemos depreender alguns ensinos.
Paulo destaca em primeiro lugar a pessoa que é instruída na Palavra de Deus, Palavra esta que faz dele um privilegiado.
É por meio da instrução que ele recebe o evangelho que é o poder de Deus para a salvação: “Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego” (Rm 1.16). Sem a exposição da Palavra de Deus não há salvação por meio ordinário, uma vez que aqueles que invocam o nome do Senhor são salvos: “Porque: Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Rm 10.13). No entanto, não poderão invocar se não crerem e não poderão crer se não ouvirem: “Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue?” (Rm 10.14). A salvação vem por meio da fé e esta vem pelo ouvir da Palavra de Deus: “E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo” (Rm 10.17).
É por meio da instrução que ele recebe a regra infalível de fé e prática. Nesta instrução ele encontra o que necessita para dar prosseguimento a sua carreira cristã desenvolvendo uma vida agradável a Deus. Através da instrução ele cresce no conhecimento de Deus, pois é disso que Ele se agrada: “Pois misericórdia quero, e não sacrifício, e o conhecimento de Deus, mais do que holocaustos” (Os. 6.6).
Ser instruído na Palavra do Senhor é, em virtude disto, um grande privilégio, uma enorme benção. Não há bem maior do que conhecer a Palavra do Senhor. Não ser instruído na Palavra ou ser mal instruído é algo terrível.
Sendo assim, tal privilégio nos traz responsabilidades, que é o que Paulo destaca em segundo lugar. Esta responsabilidade é a de “fazer participante de todas as coisas boas” aqueles que nos instruem. Por que? Porque além de manifestarmos gratidão a Deus, também semeamos para o nosso crescimento. Deus capacita e usa pessoas para nos instruir na Palavra.

Não há méritos em quem ensina, toda glória é do Senhor, porém, ao fazer dos que nos instruem participantes das coisas boas demonstramos gratidão a Deus por tê-los colocado em nossas vidas.
Calvino, comentando o texto de Gálatas 6.6 diz o seguinte: Parece provável que os mestres e ministros eram, naquele tempo, negligenciados. Tal coisa refletia a mais vil ingratidão. É algo desditoso defraudar dos meios de sobrevivência àqueles por cuja instrumentalidade nossas almas são alimentadas, recusar uma recompensa terrena àqueles de quem recebemos bênçãos celestiais. Mas é e tem sido sempre a natureza do mundo empanturrar o estômago dos ministros de Satanás, e com relutância e aversão suprir os piedosos pastores com sua indispensável comida. (J. Calvino, Calvin’s Commentaries, 1984, p. 176)
Para Calvino era uma grande ingratidão negligenciar aqueles que tinham sido feitos por Deus instrumentos de instrução do Seu povo, canais de bênçãos celestiais. Porém, Calvino constata que infelizmente é próprio do ser humano a ingratidão, a inversão de valores onde o que ele chama de ministros de satanás são valorizados ao passo que os ministros de Cristo são negligenciados.
Mas o que é fazer participante de todas as coisas boas aquele que o instrui? Em I Co. 9 Paulo nos dá seu entendimento do que seja isso.
Um dos problemas dos crentes de Corinto era a falta de abnegação, todos queriam fazer valer os seus direitos. Isso pode ser visto na contenda registrada em I Co. 1.12: “Refiro-me ao fato de cada um de vós dizer: Eu sou de Paulo, e eu, de Apolo, e eu, de Cefas, e eu, de Cristo”. Pode ser visto também no litígio entre os irmãos que iam a juízo uns contra os outros: “mas irá um irmão a juízo contra o outro irmão, e isto perante incrédulo! O só existir entre vós demanda já é completa derrota para vós outros. Por que não sofreis, antes, a injustiça? Por que não sofreis, antes, o dano?” (I Co. 6.6, 7). No capítulo 8 Paulo fala da necessidade de se renunciar ao uso dos seus direitos por causa dos irmãos para então no capítulo 9 mostrar como ele mesmo havia aplicado esse princípio em sua vida em favor deles. Ele apresenta os direitos que tinha como apóstolo e o fato de não ter feito uso dos mesmos.
Ao falar destes direitos Paulo nos dá uma ideia do que ele entendia ser fazer participante de todas as coisas boas aquele que o instrui. Ser participante de todas as coisas boas era receber bênçãos materiais que lhe permitissem ter vida digna. Paulo fala do direito ao sustento não só a si, mas a sua família caso tivesse se casado: “não temos nós o direito de comer e beber? E também o de fazer-nos acompanhar de uma mulher irmã, como fazem os demais apóstolos e os irmãos do Senhor e Cefas? Ou somente eu e Barnabé não temos o direito de deixar de trabalhar?” (I Co. 9. 4 a 6). Ele argumenta em favor de tal direito dizendo que o obreiro é digno do seu salário: “Quem jamais vai à guerra à sua própria custa? Quem planta a vinha e não come do seu fruto? Ou quem apascenta um rebanho e não se alimenta do leite do rebanho?”(v. 7); que este direito é prescrito pelo Antigo Testamento: “Porventura, falo isto como homem ou não o diz também a lei? Porque na lei de Moisés está escrito: “Não atarás à boca ao boi, quando pisa o trigo. Acaso, é com bois que Deus se preocupa? Ou é, seguramente, por nós que ele o diz? Certo que é por nós que está escrito; pois o que lavra cumpre faze-lo com esperança; o que pisa o trigo faça-o na esperança de receber a parte que lhe é devida” (v. 8 a 10); que este direito se baseia no princípio da justiça: “Se nós vos semeamos as coisas espirituais, será muito recolhermos de vós bens materiais? Se outros participam desse direito sobre vós, não o temos nós em maior medida?…” (v. 11, 12a); e que o Senhor Jesus ordenou que os que pregam o evangelho devem viver do evangelho: “assim ordenou também o Senhor aos que pregam o evangelho que vivam do evangelho;” (v. 14).
O ministro deve receber por parte da Igreja as condições necessárias para trabalhar e ter vida digna, ou seja, seus membros devem ser fiéis em suas contribuições como tributo ao Senhor: “Tributai ao SENHOR a glória devida ao seu nome; trazei oferendas e entrais nos seus átrios.” (Salmo 96.8); enquanto que a seus líderes compete a administração destes recursos de tal modo que aquele que instrui seja feito participante de todas as coisas boas. No desempenho da responsabilidade de administrar os recursos é preciso levar em conta o ensino bíblico a respeito, ou seja, o dízimo deve ser aplicado para o que foi destinado. Deus instituiu o dízimo com o propósito de prover o sustento dos levitas e a beneficência: “Ao fim de cada três anos, tirarás todos os dízimos do fruto do terceiro ano e os recolherás na tua cidade. Então, virão o levita (pois não tem parte nem herança contigo), o estrangeiro, o órfão e a viúva que estão dentro da tua cidade, e comerão, e se fartarão, para que o SENHOR, teu Deus, te abençoe em todas as obras que as tuas mãos fizerem.” (Dt. 14.28 e 29) Assim, quando os dízimos são aplicados em outros fins que não o ministério e a beneficência (construção e reformas, por exemplo), estão sendo administrados de modo errado. Quantas vezes a igreja deixa de fazer daquele que a instrui participante das coisas boas ou porque seus membros são infiéis ou porque seus líderes aplicam o dízimo em coisas para as quais ele não foi destinado e agindo assim a Igreja deixa de desfrutar da bênção do Senhor, pois o texto diz que é preciso dizimar e aplicá-lo corretamente para que o Senhor a abençoe.
O verdadeiro instrutor não desempenha seu trabalho por dinheiro como que buscando riqueza, seu alvo é a glória de Deus, a edificação da Igreja. Ele procurará fazer seu trabalho sendo sustentado ou não (“eu, porém, não me tenho servido de nenhuma destas coisas e não escrevo isso para que assim se faça comigo; porque melhor me fora morrer, antes que alguém me anule esta glória. Se anuncio o evangelho, não tenho do que me gloriar, pois sobre mim pesa essa obrigação; porque ai de mim se não pregar o evangelho!” I Co. 9.15, 16), porém a igreja fiel sustenta com o melhor que pode aquele que a instrui. Ela o faz porque é grata a Deus e sabe que este é o seu dever, o próprio Deus a incumbiu desta tarefa, mas também o faz por saber que é um investimento para a sua própria vida. Ministros que são participantes de todas as coisas boas, trabalham melhor e podem produzir mais. Podem se dedicar ao estudo tendo acesso ao que há de mais novo no conhecimento bíblico teológico.
Recentemente um professor disse que se soltarmos um balão em um recinto fechado ele subirá apenas até a altura do teto. Se quisermos que ele suba mais o teto precisará ser elevado. Ele comparou o ministro ao teto da Igreja de modo que os crentes só conseguirão subir até onde ele está, para que subam mais o ministro precisa subir.
Algo interessante de se notar é que na narrativa bíblica de alguns avivamentos o fazer participante de todas as coisas boas aquele que instrui está presente.
Na reforma promovida por Ezequias após mandar reabrir o templo, restabelecer o culto e celebrar a páscoa o serviço dos sacerdotes e dos levitas é restabelecido: “Estabeleceu Ezequias os turnos dos sacerdotes e dos levitas, turno após turno, segundo o seu mister: os sacerdotes e levitas, para o holocausto e para as ofertas pacíficas, para ministrarem e cantarem, portas a dentro, nos arraiais do SENHOR.” (II Cr. 31.2). Ezequias restabelece também as contribuições que tornariam possível o sustento dos sacerdotes e levitas: “Além disso, ordenou ao povo, moradores de Jerusalém, que contribuísse com sua parte devida aos sacerdotes e aos levitas, para que pudessem dedicar-se à Lei do SENHOR.” (II Cr. 31.4)

Chama a atenção o fato de que a resposta do povo foi positiva e tendo a bênção do Senhor recaído sobre o povo houve sobra em abundância: “Perguntou Ezequias aos sacerdotes e aos levitas acerca daqueles montões. Então, o sumo sacerdote Azarias, da casa de Zadoque, lhe respondeu; Desde que se começou a trazer à Casa do SENHOR estas ofertas, temos comido e nos temos fartado delas, e ainda há sobra em abundância; porque o SENHOR abençoou ao seu povo, e esta grande quantidade é o que sobra.” (II Cr. 31.9, 10)
Outra narrativa que traz algo semelhante é a da reforma promovida por Neemias. Ele restaurou a manutenção dos levitas que haviam abandonado seu posto por falta de sustento: “Também soube que os quinhões dos levitas não se lhes davam, de maneira que os levitas e os cantores, que faziam o serviço, tinham fugido cada um para o seu campo. Então, contendi com os magistrados e disse: Por que se desamparou a Casa de Deus? Ajuntei os levitas e os cantores e os restituí a seus postos. Então, todo o Judá trouxe os dízimos dos cereais, do vinho e do azeite aos depósitos.” (Ne. 13.10-12) Notem que a cobrança de Neemias não recai sobre os levitas, mas sobre os magistrados (aqueles que tinham sobre seus ombros a responsabilidade da administração) que são cobrados por permitirem tal situação. E quantos ministros hoje sofrem quando a responsabilidade de faze-los participantes de todas as coisas boas não é cumprida. Sofrem por não terem condições de oferecer o melhor, por não terem acesso a ferramentas que melhor os habilitem para o serviço, e em muitos casos por não terem o tempo necessário por precisarem lançar mão de atividades seculares para prover o sustento de suas famílias.
O Apóstolo Paulo destaca em terceiro lugar o beneficiário, aquele que deveria ser feito participante de todas as coisas boas. Estes são aqueles que instruem. Deus distribuiu dons aos seus filhos, dentre estes dons ele concedeu o dom do ensino.
Em Romanos 12.3 a 8 o Apóstolo fala de diferentes dons e entre eles encontramos o do ensino: “Se ministério, dediquemo-nos ao ministério; ou o que ensina esmere-se no faze-lo;” (v. 7). Em Efésios 4.11 Paulo diz que Deus “concedeu uns para apóstolo, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres”. Todos estes tinham a responsabilidade de ensinar, eram instrutores do povo e seus dons objetivavam o aperfeiçoamento dos santos (Ef. 4.12). São estes os beneficiários da participação em todas as coisas boas.
Nos dois versículos finais do texto que tomamos por base Paulo passa a sumariar o que acaba de dizer com referência ao atendimento às necessidades dos ministros. Paulo Diz: ”Não vos enganeis, de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará”. Diante de suas colocações no verso 6 alguém poderia dizer que nada pode fazer pois tem família para cuidar, dívidas a saldar, ou ainda diriam que os seus ministros não são merecedores. Paulo refuta estas alegações lembrando que essa é antes de mais nada uma responsabilidade para com Deus. A preocupação primordial não é o quanto amamos o ministro, mas o quanto amamos a Cristo e ao seu evangelho.
Um dos grandes problemas do homem é entender que tudo o que se passa às mãos de outros significa prejuízo para si. Paulo trata esta questão colocando o sustento dos ministros como um investimento e não prejuízo.
Quando fazemos do ministro participante de todas as coisas boas estamos lançando sementes. O Apóstolo, na verdade mostra que de uma forma ou de outra estamos semeando, podemos semear para o espírito ou para a carne. Semear para a carne é preocupar-se com as coisas terrenas sem consideração pela vida futura. Semear para o espírito é olhar para o Reino de Deus, é busca-lo em primeiro lugar: “buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas cousas vos serão acrescentadas.” (Mt. 6.33).
Os que semeiam para a carne colherão frutos corruptíveis ao passo que os que semeiam para o espírito colherão frutos incorruptíveis.
Cristo nos exortou a não ajuntarmos tesouros na terra, mas no céu: “Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam; porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.” (Mt. 6. 19-21). Como tem sido a sua semeadura? Onde seus tesouros tem sido depositados?
Paulo nesta passagem nos mostra que uma das formas de semearmos para a vida eterna é investindo naqueles que Deus chamou para nos instruir. Isto começa na sua formação, investindo no seminário para que os candidatos ao ministério desfrutem de todas as condições necessárias para o seu desenvolvimento, e se estende aos ministros no exercício de suas funções. Estes precisam prosseguir em seus estudos, conforme prometeram através do compromisso assumido com Deus e sua Igreja no dia de sua formatura, eles precisam de condições de trabalho. Paulo diz que ninguém vai a guerra a sua própria custa, não planta vinha sem comer do seu fruto, nem apascenta um rebanho sem se alimentar do seu leite (I Co. 9.7). Deus providenciou os meios para que a Igreja seja instrumento de sustento destes ministros e nós como Igreja não podemos nos furtar a esta responsabilidade. “E não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não desfalecermos”. Gálatas 6.9