Ministério Pastoral: “O chamado de Deus para um homem viver, sofrer e morrer prazerosamente por amor a Cristo e ao Evangelho”.

Rev. Sebastião Salvador Da Silva
17 de abril de 2020
“Uma igreja em boa ordem cultua com ordem e decência”.
17 de abril de 2020

Ministério Pastoral: “O chamado de Deus para um homem viver, sofrer e morrer prazerosamente por amor a Cristo e ao Evangelho”.

Ministério Pastoral: “O chamado de Deus para um homem viver, sofrer e morrer prazerosamente por amor a Cristo e ao Evangelho”.

 “Porém em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, desde que eu complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus.” Atos 20:24

Introdução

O ministério pastoral é um dom, uma dádiva de Deus concedida à sua igreja. Segundo Paulo, Deus ao dar o dom do pastorado visa ao “aperfeiçoamento dos santos”, “a edificação do corpo de Cristo”, “à unidade da fé”, ao “pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita maturidade cristã, a estatura, a semelhança de Cristo Jesus nosso Senhor”. A semelhança de Cristo é o alvo último e supremo do trabalho ministerial. A disposição do ministro de viver, sofrer e morrer prazerosamente do ministério tem como motivação o amor a Cristo e sua glória revela no santo Evangelho.

Visa também livrar a igreja das falsas doutrinas, da artimanha de falsos mestres que querem conduzir crentes ao erro, promover o crescimento na verdade, no amor e naquele que é a cabeça, Cristo. Proporcionar à igreja de Cristo uma estrutura harmoniosa, que conduz ao devido funcionamento de cada parte, consolidar a verdade do evangelho de Cristo, e promover o amor e a unidade entre as ovelhas do rebanho de Deus. E fazer a glória do Senhor ser conhecida em todo o mundo, por meio da fiel pregação do Evangelho revelado nas Sagradas Escrituras.

Para o bom desempenho desse nobre e sublime chamado, o ministro deve ser um homem desapegado de si mesmo, de honras, de reconhecimentos, de posições, de glórias, confortos, de dias tranquilos, e da própria vida, mas, precisa necessariamente ser um homem completamente tomado pela paixão da glória de Deus, movido por um profundo, intenso e crescente amor por Cristo Jesus e sua supremacia.

O propósito deste artigo é provocar uma reflexão bíblica sobre a disposição de o ministro viver, sofrer e morrer prazerosamente por amor a Cristo e ao Evangelho da graça de Deus. Abordarei o assunto desenvolvendo sete tópicos que seguem: 1 – O Amor do Ministro por Cristo e o Trabalho Pastoral, 2 – O Fim último e principal do trabalho ministerial: a Glória de Deus, 3 – A Humildade do Pastor no desempenho do trabalho ministerial: Servindo a Cristo e a igreja com alegria e prazer, 4 – A Vida de oração do Pastor – Uma doce e agradável comunhão com Cristo, 5 – O trabalho ministerial e a centralidade do Evangelho de Deus: A Cruz de Cristo, 6 – O Ministério Pastoral e a Escritura Sagrada: o Estudo do Ministro, 7 – O Ministério e o poder de Deus na pregação: Prontos para a vida e para a morte em nome de Cristo. Por fim a aplicação e conclusão, onde procuro oferecer princípios bíblicos e práticos tanto para a igreja como para o ministro, buscando com isso conformar-nos à imagem de Cristo.

O amor do ministro por Cristo e o trabalho pastoral

“A maior prova do nosso amor a Cristo é a obediência às leis de Cristo… O amor é a raiz; a obediência é o fruto”. (Matthew Heny).

“A medida de nosso amor pela igreja que pastoreamos pode ser em grande parte determinada pela frequência e intensidade de nossas orações em favor dela.” (R. Baxter).

O Ministério Pastoral é um dom sublime, um chamado glorioso, uma vocação sobremodo excelente. Naturalmente, por sua elevada natureza, traz aos chamados e vocacionados, grande responsabilidade diante de Deus, a urgente necessidade de seu exercício para com o rebanho de Deus, a busca incansável pelas almas perdidas (os eleitos de Deus) e glorificação do nome de Deus. Contudo, o desempenho desse sublime mistério, não pode ser motivado por objetivos outros, se não pelo intenso, fervoroso e crescente amor por Cristo Jesus.

É admirável lermos o conselho que Pedro dá aos Presbíteros sobre como pastorear o rebanho de Deus; ele escreveu: “Aos presbíteros que há entre vocês, eu, presbítero como eles, testemunha dos sofrimentos de Cristo e, ainda, coparticipante da glória que há de ser revelada, peço que pastoreiem o rebanho de Deus que há entre vocês, não por obrigação, mas espontaneamente, como Deus quer; não por ganância, mas de boa vontade; não como dominadores dos que lhes foram confiados, mas sendo exemplos para o rebanho. E, quando o Supremo Pastor se manifestar, vocês receberão a coroa da glória, que nunca perde o seu brilho.” (1 Pedro 5:14). Mas, antes desse conselho admirável, Pedro precisou responder de coração a essas três perguntas de Jesus – “Simão, filho de João, amas-me mais do que estes outros?” Por três vezes Pedro respondeu que sim, Jesus então, por três vezes repetiu: apascenta, pastoreia, apascenta as minhas ovelhas.

O amor de Pedro por Cristo foi a resposta para o seu bom pastoreio. Foi a chave mestra de seu ministério feliz e bem sucedido. Foi o que o capacitou a viver, sofrer e morrer prazerosamente em nome de Cristo. Pastores que amam a Cristo, assim como Pedro, são pastores alegres, que gostam do seu trabalho; não fazem por obrigação, por pressão, pela expectativa da igreja, por medo do fracasso ou da repreensão Deus. Mas o fazem por amor e cheios de alegria em Cristo. Há neles uma disposição interior, um impulso que vem alegremente de seu interior. Eles querem fazer o trabalho ministerial, isso é a sua alegria. Essa alegria ministerial se torna uma obrigação para pastores que amam a Cristo – um fardo leve e um jugo suave.

Não são motivados pela ganância ao dinheiro, mesmo que precise desse para sua manutenção e de sua família, mas o dinheiro não é a sua motivação, se assim o fora, sua alegria não seria Cristo, mas as coisas que o dinheiro poderá lhe dar, o tamanho de seu salário, o poder de compra, como se ouve muito hoje. Isso é ser mercenário. Mas ao contrário, o Pastor que ama a Cristo, ama o ministério, ama as ovelhas que lhes foram confiadas, e é movido e recompensado intrinsecamente ao ver a graça de Deus fluir através dele para os outros. Quando o gozo do ministro ao seu trabalho é motivado por uma disposição alegre no ministério, Cristo é honrado e o rebanho se sente amado por Deus.

O amar a Cristo mais do que qualquer outra coisa é o segredo do sucesso e do bom desempenho do ministério pastoral. O estudo, a oração e o cuidado do rebanho, são ações que fazem parte de seu ministério, prioritariamente a pregação fiel da Palavra de Deus. Contudo, se tais atividades forem realizadas apenas como obrigação, parafraseando as palavras do Apóstolo Paulo: “serão sem proveito, como bronze que soa ou como o címbalo que machuca os ouvidos”, “de nada adiantarão”.

Paulo, um exemplo de amor a Cristo

“Este é para mim um instrumento escolhido para levar o meu nome diante dos gentios e reis, bem como diante dos filhos de Israel. Pois eu mesmo vou mostrar a ele quanto deve sofrer pelo meu nome.” (Atos 9:15,16).

“Um ávido defensor da graça soberana de Deus. Ele fora salvo pela graça soberana; fora instruído sobre a graça soberana; pregava a graça soberana; escreveu sobre a graça soberana; e viveu a graça soberana. Sua vida estava imersa na graça soberana.” (Steven J. Lawson).

Paulo se destaca como um homem que foi completamente transformado por Deus e foi obediente ao seu chamado. Ele amava ao Senhor Jesus acima de todas as coisas e se dispôs completamente ao serviço e amor à causa do Evangelho. Sua vida é hoje um exemplo de fé, serviço e resiliência para todos os pastores dos dias atuais. Em sua carta aos filipenses encontramos a seguinte declaração: “Mas o que, para mim era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo. Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo.” (Filipenses 3.7,8). Foi um homem completamente tomado pela paixão da glória de Cristo Jesus. Tinha consciência que a supremacia de Cristo é admirável, é muito admirável, é a mais admirável, é sempre admirável, é totalmente admirável. Paulo amava a Cristo, e seu amor era tão grande pelo Senhor, que ele estava pronto em toda e qualquer situação da vida a sofrer e a morrer pelo Senhor.

Assim, como o apóstolo Paulo, o Pastor que ama a Cristo vive, sofre e está pronto a morrer por ele. É um homem que tem todo o seu ser entregue totalmente a Cristo, os seus pensamentos são exercitados no conhecimento de seu Senhor, as suas palavras destilam a sublimidade da pessoa de Cristo, a sua vontade é escrava de Cristo, suas emoções explodem na exaltação do Senhor Jesus: “Aquele que foi manifesto na carne foi justificado em espírito, contemplado por anjos, pregados entre os gentios, crido no mundo, recebido na glória. A ele seja a glória, tanto agora como no dia eterno.”.

Seu maior desejo é que a sabedoria e a vontade do Senhor Jesus o governem completamente. Para tanto, pastores assim, reúnem todas as suas forças, e convocam todos os seus recursos, dispõem todas as suas habilidades e depositam todo seu entendimento, toda a sua alma, todas as áreas de sua vida a servirem a Cristo como o seu único alvo legítimo. Para este pastor o viver é Cristo, e o morrer é lucro. Pois, nenhum de nós vive para si, e nenhum morre para si. Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. De sorte que, ou vivamos ou morramos, somos do Senhor (Rm 14.7,8).

Um homem dedicado a fazer a glória do Senhor Jesus conhecida em todo mundo

“O alvo do trabalho pastoral: a glória de Deus. O centro do trabalho pastoral: a cruz de Cristo. A alegria do trabalho pastoral: a ressurreição de Cristo. O poder para o trabalho pastoral: o dom do Espírito Santo. A arma para o trabalho pastoral: toda a Palavra de Deus. O instrumento do trabalho pastoral: um homem queimando de amor por Cristo. O público do trabalho pastoral: O mundo.”

“Portanto, se vocês comem, ou bebem ou fazem qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus.”(1 Coríntios 10:31).

Como resumir a vida e o ministério de um homem que ama ao Senhor Jesus? Este homem deseja primeiro e acima de qualquer a coisa, a glória do Senhor Jesus Cristo, e, portanto, ele se dedica intensamente, exclusivamente, exaustivamente, notoriamente a conhecer e reconhecer Cristo como seu único Senhor, seu Deus, seu Salvador e Rei, o bem maior da sua vida. Ele cultiva a sua mente e o seu coração no conhecimento de Cristo e no esplendor de sua glória revelada nas Escrituras e em toda a criação; glorifica-o em toda a sua vida e atividades ministeriais, crendo nele, confessando-o diante dos homens, louvando-o, defendendo sua verdade.

Ele pensa em Cristo em todo o tempo, o tempo todo medita sobre Cristo, em suas palavras, em seus nomes, em suas obras, dia e noite, noite e dia, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza lembra-se de Cristo. Cristo é altamente apreciado por ele, honrado, adorado. O seu porto seguro, quer na vida, quer na morte, Cristo é a sua única esperança, alegria, deleite, comunhão e regozijo.

Um homem que deseja ver o Reino de Cristo dominando sobre tudo e todos

“Minha alma estava neste dia, de quando em quando, docemente posta em Deus: ansiei estar com ele para que pudesse contemplar sua glória. Ah, que o seu reino venha a este mundo; que eles possam todos amar e glorificar a Deus pelo que ele é em si mesmo e que o bendito Redentor possa ver sobre o labor de sua alma e ficar satisfeito. Ah, vem, Senhor Jesus, vem depressa! Amém.” (David Brainerd).

É um homem que tem zelo pelo nome de Cristo, por isso, o invoca do mais alto céu, suplicando para que seu nome seja santificado em sua vida, sua vontade seja feita nos céus e na terra, e que seu reino domine sobre tudo. Curva-se diante da majestade de Cristo, rendendo-lhe todo o louvor, adoração e agradecimento. Ao Senhor

Jesus Cristo, ele dedica toda a obediência e submissão do homem todo; busca incansavelmente agradar ao Senhor Jesus em tudo, se entristece quando ele é ofendido, desprezado, zombado e não crido pelos homens. Anda com seu Senhor humildemente; sua vida destaca tanto Cristo, que tal ministro desaparece na luz gloriosa de seu Senhor.

O pastor verdadeiro foi chamado e enviado à igreja de Cristo para edificar o reino de Deus nos corações de seu povo, manifestar, por meio da pregação fiel do evangelho, a obra salvadora de Deus, em Cristo, para todo o mundo. Por isso, o Pastor satura o seu coração, os corações de suas ovelhas, as suas pregações, os seus estudos, os seus ensinamentos, as suas palestras, os seus escritos, a sua evangelização da glória de Deus. E clama diariamente, continuamente até que toda a vida espiritual, toda a vida social, toda a cultura, todas as classes, todas as ruas, becos, vielas, todas as profissões sejam tomados de toda a glória de Deus. Por isso ele abre mão de todas as suas posses e de todos os seus planos, de toda a sua vida, pela realidade da expansão da glória de Deus.

Considerações Finais

Amar a Cristo e glorificá-lo no ministério pastoral e em nossa vida é nosso dever. Contudo, devemos estar conscientes de que isso não é simples. Há uma forte inclinação em nosso coração que desperta outros sentimentos, que muitas vezes não correspondem à vontade de Deus e nem estão de acordo com os seus propósitos. Amar a Cristo sobre todas as coisas e desejar a sua glória como nosso alvo final implica ódio para com o pecado, medo de desagradar a Deus, esperança nas promessas de Deus, prazer e contentamento na comunhão com o Senhor, desejo pela revelação gloriosa e final do Filho de Deus, alegria extrema na redenção que ele efetuou por nós, tristeza e profunda contrição por falharmos no amor a Cristo e a sua glória, gratidão pelas muitas bênçãos imerecidas que nos foram dadas nele, zelo pelos propósitos de Deus, ter fome e sede de justiça. Nosso dever e maior prazer para com Deus é que todo o nosso ser se adeque apropriadamente à sua realidade e, assim, brilhe em nós a sua glória.

Fé, amor, perseverança, santificação, esmero e grande diligência na vida cristã se farão necessários, pois, precisamos subjugar o velho homem que ainda temos que fazer morrer em nós a velha natureza que tenta promover em nossos corações a imoralidade sexual, impureza, paixões, maus desejos e a avareza, que é idolatria. Mas nos revestirmos como eleitos de Deus, santos e amados, cheios de compaixão, de bondade, de humildade, de mansidão, de paciência. Segundo à imagem daquele que nos criou.

Amado colega de ministério o que a igreja que você pastoreia está vendo em você? Cristo? Os seus esforços nos ministério são realizados por amor a Cristo e sua glória, ou tem outras razões particulares diferentes das de Cristo? Suas pregações exaltam a supremacia de Cristo, a sua sublimidade, a sua grandeza e glória? O que seus filhos e esposa veem em você no dia a dia de seu lar? Cristo? Seu anseio por ele é percebido por todos que estão ao seu redor? Cristo e somente Cristo tem tomado o centro de sua vida? Pensemos nisso, pois talvez a apatia da nossa igreja, seja por causa de uma imagem opaca de Cristo que temos passado para nosso rebanho.

por Rev. Marco V. Ribeiro