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PASTORAL – JULHO 2003

Rev. Flávio Antônio Alves da Costa

 

A Igreja, na verdade, tinha paz por toda a Judéia, Galiléia e Samaria, edificando-se e caminhando no temor do Senhor, e, no conforto do Espírito Santo, crescia em número.At 9.31

Amados irmãos conservadores, temos trilhado por um caminho comum, mantido uma só fé, praticado um só batismo, desde a muito , ou seja, são 63 anos de lutas árduas e de manutenção de alvos maiores que os pessoais, içando a bandeira da ortodoxia quanto aos ensinos da Palavra de Deus, sem nunca nos esquecer da piedade cristã, em nossa Pátria.

 

Os tempos atuais, amados irmãos, não são diferentes e nem piores que aqueles que os nossos pródromos viveram (protagonizaram) nos idos dos anos 30 e 40. Eles se mobilizaram em torno de uma causa comum, mas desgastante e exigente, a defesa da fé cristã exarada da Palavra de Deus. Certamente ouviram daqueles que não aderiram a essa nobre causa, palavras de desânimo, de desestímulo e de afronta, como: “É uma causa nobre, mas perdida”. “Vocês são poucos!” “Vocês são retrógrados” e etc…’ Suas convicções foram maiores do que seus desafios; seus ideais mais consubstanciados na verdade objetiva do que naquilo que viam e presenciavam. Eles não saíram em defesa de uma causa infundada ou egocêntrica, antes estavam comprometidos e convictos de que muitos posicionamentos e conceitos novos haviam se infiltrado no seio da Igreja de Cristo; e mais cedo ou mais tarde, isso traria à Igreja grandes desvios  nos  rumos antes defendidos pela liderança. Era preciso retornar às origens históricas da igreja; era preciso ler, com os filhos, a Palavra de Deus. Como nos diz o Salmo 78.3 e 4: “O que ouvimos e aprendemos, o que nos contaram os nossos pais, não o encobriremos a seus filhos; contaremos à vindoura geração os louvores do Senhor, e o seu poder, e as maravilhas que fez.” Amados irmãos, esse é o nosso legado e essa, a nossa herança.

 

É muito comum ver que a força evangélica em nossa pátria procura harmonizar o pluralismo da sociedade com exclusivismo da verdade apresentada no livro Sagrado. Nesse contexto, não há espaço para aqueles que têm opiniões próprias e procuram formar idéias e ideais. Para exemplificar o assunto, na semana passada, um importante veículo de comunicação exibiu uma reportagem cujo tema era: “Os provocadores de Cristo”. Nela, o articulista opõe-se à propagação do Evangelho de Cristo nas diferentes culturas. Ele afirma: “Nem todos os missionários compartilham a mesma visão predatória. Alguns nem proselitismo fazem. Contentam-se com as obras de caridade como forma indireta de angariar simpatias e, com alguma sorte, adeptos. Há uma violência intrínseca, no entanto, mesmo nas versões mais benignas do missionarismo” (Veja, ano 36, nº 26, 2 de julho de 2003, pg 122). Esse tipo de pluralismo em nossa sociedade é marcado pela arrogância cultural e teológica,  totalmente desprovida  da verdade, Sua fonte de autoridade é a experiência religiosa e o pressuposto de que não pode haver mudanças religiosas nas pessoas do Sitz im Leben. Não há lugar para mudanças culturais. Assim, aqueles que realmente estão promovendo uma ação coerente com o reino de Deus chegam a ser classificados de ‘intolerantes’.

 

Esse caminho é inviável, fantasioso, inatingível e fadado ao nada; pois está desprovido das bases corretas. Isso tem trazido confusão para nossas igrejas. Essa linha de pensamento evangélico tem provocado um questionamento em nossas bases: lares e igrejas; e gerado, até mesmo, incompreensões. Como agir? Como ‘estender as tendas’? Como alcançar outros para o Evangelho de Cristo? Na procura de respostas, muitos têm procurado desenvolver novos paradigmas cristãos, inovações cúlticas, metodologias mais brandas e mais eficientes. É comum se falar em movimento de planejamento eclesiástico e de crescimento de igrejas. O problema é que chega-se ao ponto de se introduzir conceitos do profissionalismo mundano e pragmático  para que a igreja cresça numericamente.

 

O assunto “crescimento de igreja” é palpitante e urgente, visto que estamos desejosos de agradar a Deus e conseqüentemente usufruir das  suas bênçãos, tais como: vida mais comprometida com o Senhor, almas sendo salvas e arroladas às igrejas, desejo mais profundo  de nos tornarmos: homens, mulheres e crianças que ‘andam com Deus’. O planejamento eclesiástico é algo natural e saudável à igreja, contudo os frutos ou resultados serão sempre condicionados à operação do Espírito Santo no  coração dos escolhidos. Tal planejamento só é cabível quando realizado sob a supervisão do Senhor da Igreja, sabendo que ele, é Senhor de todas as coisas, inclusive do crescimento da igreja. Longe de nós usar recursos outros, senão aqueles admitidos na Palavra. Não querermos trazer almas ‘convencidas’ pelo misticismo,  por truques visuais ou psicológicos, por artimanhas intelectuais, por tradições humanas ou por estratégias animistas. Não nos esqueçamos de que a nossa Confissão de Fé afirma que ‘todos os livros do Velho como do Novo testamentos, todos dados por inspiração de Deus, para serem a regra de fé e prática’ (I, ii) do crente em Cristo. Isso quer dizer que cremos no que ela ensina e que estamos dispostos aplicá-la em nossa vida, a fim de sermos corrigidos e dirigidos. Nos últimos anos, este assunto tem sido a pauta constante de nossos presbitérios. O que  o texto de Atos 9:31 tem a nos ensinar? Sejamos sinceros e humildes no nosso aprendizado como liderança da Igreja Presbiteriana Conservadora do Brasil.

 

O livro de Atos é o relato histórico de um curto período da Igreja de Cristo. Nele, encontramos Lucas descrevendo a igreja, embora de modo sucinto, com algumas características importantes. Essas características, certamente, são o paradigma ou ‘molde’ para a nossa igreja se ajustar e cortar as arestas que sobrarem.

 

A pequena igreja, que começara com 120 almas, tinha atingido um número maior de pessoas. Num primeiro momento, restringira-se aos judeus, mas depois de alguns esforços por parte da liderança e da bênção de Deus, o seu número de membros teve um espetacular crescimento. O rol de membros foi multiplicado com a vinda dos gentios. Lucas diz que a igreja se espalhara pela ‘Judéia,Galiléia e  Samaria’, regiões até então não alcançadas, que permaneciam nas trevas. Esse foi o campo que foi semeado e lavrado com muito amor e ardor por parte dos crentes daquela época. Os novos cidadãos do reino, gentios, foram chamados pelos eleitos judeus. Os dispersos faziam uma obra importante e urgente (8.4) Esses cidadãos alcançados, agora, seriam inseridos no reino de Deus. Isso era tremendo e maravilhoso. Lucas fala de uma única igreja, não de uma igreja dos judeus e outra dos gentios. Era um povo só, unido ou, melhor dizendo, ‘galvanizado’ pelo mesmo Espírito Santo que aplicava a obra redentora de Cristo. Ainda que provenientes de culturas diferentes, havia harmonia entre eles, ainda que etnicamente houvesse divergência. A obra do Espírito Santo era maior que essas diferenças.

 

Era uma igreja que tinha paz.

 

O contexto afirma que a igreja havia passado por grandes aflições. Primeiramente vinda do judaísmo; e depois, no decorrer de todo o livro, vindas  das demais autoridades romanas e de outros povos. Naquele exato momento, os judeus não estavam  envolvidos ou preocupados com a ‘seita do Caminho’. Ela estava livre da interferência ou intromissão externa. Não podemos nos esquecer de que o Deus da aliança é o Deus da paz, a fonte de toda paz. Ele agia no coração dos demais povos a fim de que seu povo tivesse melhores dias e que não fosse molestado.

 

Alguém já disse que a paz é o melhor da vida. A paz é um indicativo de completitude, de entrar num estado de integridade e unidade em um relacionamento restaurado. Para os que crêem que a Palavra de Deus é ‘a regra de fé e prática’, a paz é fruto do Espírito Santo.

 

Quando procuramos elaborar medidas que promovam o crescimento, é imprescindível que a paz seja algo palpável entre nós, a liderança. Ainda que existam diferenças em nós, elas não devem minimizar os efeitos da paz que vem do Senhor. Aqueles que se achegarão, através do ministério que temos desempenhado, precisam de um ambiente regado pela paz de Cristo.  As nossas decisões conciliares precisam nos levar a um maior  desfrute da paz. Assim, depois de encerradas as discussões e exposição de idéias, não podemos cultivar outro espírito, senão o da paz. Paulo disse aos Colossenses: “Seja a paz de Cristo o árbitro dos vossos corações” (3.15). As nossas decisões não devem ser governadas pela ambição pessoal, desejo de prestigio, amargura ou espírito implacável, antes sim, governadas pela paz de Deus. Assim ela é uma marca imprescindível para uma igreja que quer e precisa crescer.

 

Era uma Igreja que se fortalecia.

 

Todos aqueles que têm filhos, sabem muito bem o quanto é importante uma alimentação sadia e adequada para que se desenvolvam. Sem isso, eles não poderão maturar fisicamente. Não se desenvolverão harmoniosamente as diferentes partes do corpo. Assim também é a igreja, ela precisa ser fortalecida.

 

Contudo, não há artifícios para se chegar ao pleno desenvolvimento. Só existe uma receita. É a receita mais simples e menos trabalhosa. É o fortalecimento advindo de uma melhor compreensão da Palavra de Deus. Sem isso, a igreja será uma igreja ‘farinácea’; será gorda, mas  frágil por não ter desenvolvido sua musculatura.

 

Ser fortalecida, aqui, indica consolidar sua posição num mundo ateu e contrário à Palavra de Deus. Nossa descendência precisa ser fortalecida através da continuidade dos estudos coerente com a nossa posição reformada. Essa posição, historicamente falando, nunca nos acomodará, antes nos desafiará para tornar o ‘nome do Senhor dos Céus e da terra’ conhecido entre outros patrícios, neste pais tão lindo e maravilhoso, mas que muito precisa do Salvador Jesus Cristo.

 

O fortalecimento se dá em função da formação de homens comprometidos com a Palavra. Em nossa amada igreja, o fortalecimento deve advir da nossa “Casa de Profetas”. É nela que o compromisso com a ortodoxia e prática são estruturados nas almas dos jovens alunos. Portanto, ela  precisa ser mantida com nossas orações e ofertas constitucionais.  No que for necessário, a nossa “Casa de Profetas” precisa se aparelhar melhor também de formadores de opiniões, para poder entregar à igreja  melhores líderes.

 

Não nos esqueçamos de que, segundo os nossos pródromos, o Seminário é a ‘menina dos olhos da igreja’. Se é assim, cuidemos bem dele.

 

Era uma igreja marcada pela coragem.

 

Alguém poderia perguntar: “Por que coragem?” A igreja precisa de ‘valentões’? Nada disso. Recordemo-nos de que o desafio para igreja era ‘ser testemunhas’ em toda parte. A versão NVI traduz a expressão: ‘conforto’ por ‘encorajada’ pelo Espírito Santo.

 

Uma liderança encorajada é fundamental para superação dos obstáculos que surgem no percurso.  Sem esse encorajamento, nossas decisões se tornam duvidosas e não estimuladoras para os liderados. É importante notar que a coragem não é resultante da euforia, de medidas ou resoluções imediatistas, ou originadas de ‘outros espíritos’ da carne. Não irmãos, o nosso encorajamento tem que vir da motivação do Espírito Santo. Se houver qualquer outro tipo de encorajamento, exceto o abençoado pelo Senhor e abençoante para o povo de Deus, e se isso prevalecer entre nós, tudo o mais ficará comprometido, maculado e arruinado.

 

Precisamos de muito encorajamento vindo do Espírito Santo para solucionar os problemas que ora se nos apresentam. Todas as nossas decisões precisam considerar a necessidade de melhorar o que já nos foi dado. É preciso, que nós como líderes, presbíteros regentes e presbíteros docentes, encorajemos os liderados a cumprirem o mando de Cristo: ‘Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações… ensinado-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei’.

 

Era uma igreja marcada pela santidade.

 

Viver em santidade nada mais é do que refletir o propósito para o qual fomos chamados: ser sacerdotes de Deus num mundo atolado pelo mundanismo, pelo misticismo, pela ignorância quanto à Palavra de Deus, pela auto-suficiência advinda das conquistas tecnológicas e acadêmicas.

 

Uma igreja marcada pelo ‘caminhar no temor do Senhor’ sempre se distinguirá dos valores e ideais que não agradam ao nosso Deus. Como os fatos da história da igreja são ilustrativos e sempre oportunos para nós. Digo isso porque, no pouco que conheço, tenho considerado alguns dos chamados ‘calvinistas holandeses’ como Kuiper, por exemplo. Ele era um brilhante político liberal, mas foi influenciado pela piedade (vida santa) dos membros de sua igreja; e Deus usou esse meio a fim de que começasse um novo ministério conciliando uma posição fortemente marcada pelo compromisso com a Palavra de Deus e uma ampla visão do reino de Deus.

 

Uma igreja marcada pela santidade certamente se preocupará com a manutenção dos seus obreiros, e isso tem sido feito, apesar dos nossos passos trôpegos.

 

Creio, ainda, que é necessário que os nossos estudos conduzam o nosso povo a ‘andar com Deus’, a ter aspirações santas, decisões santas, motivações santas, desejos santos; onde cada ação tenha sua origem na motivação maior para cada Conservador: “a glória de Deus”. Isso envolve cada membro, cada conselho, cada presbitério e todo o nosso Sínodo.

 

O resultado será o crescimento da igreja: espiritual e numericamente. As almas virão confessar que ‘Cristo é o Senhor’. Haverá crescimento substancial em nossas igrejas. Mesmo em meio às tribulações, aqueles primeiros crentes mostravam ao mundo o gozo e o prazer de viver em e para Cristo.

 

Estando estas marcas presentes em nossas igrejas atrairemos numerosa multidão ao conhecimento salvífico de Cristo Jesus.

 

Que Deus nos ajude!