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28 de junho de 2017
PASTORAL 2003
28 de junho de 2017

“Firmando os Marcos Antigos”

Pastoral – Julho de 2000

Rev. Welerson Alves Duarte

 

“Firmando os Marcos Antigos”.

Não removas os marcos antigos que puseram teus pais.” (Pv 22.28).

Estamos distantes 60 anos de quando nossos pais puseram os marcos na fundação da Igreja Presbiteriana Conservadora do Brasil. Estes marcos estabeleceram a identidade desta igreja e assim dão razão à sua existência como denominação. Nesses sessenta anos Deus tem levantado servos fiéis que batalharam pela fé. Muitos destes já partiram, tendo cumprido sua carreira. Não poderíamos deixar de mencionar ao menos aqueles que mais recentemente foram chamados pelo Senhor, como os Presbs. Sebastião Rodrigues dos Santos e Naul Steffen e, estando entre nós nesta reunião, o Presb. Ricardo Krentzenstein Filho. Estes cumpriram sua carreira; nós, porém, aqui ainda estamos e não podemos esmorecer. Pesa sobre nossos ombros esta honrosa responsabilidade. Estamos às portas do Século XXI e a Igreja de Cristo, por toda a face da terra, vem sofrendo grande pressão para que inovações sejam introduzidas. Alguém já disse que nos anos passados a prática da Igreja Reformada era praticamente uniforme em todas as partes do mundo, o que infelizmente já não se tem observado mais. Em nosso país, era possível identificar uma igreja por sua teologia, prática, liturgia, etc.. Hoje, as igrejas têm se tornado cada vez mais iguais e isto não tem acontecido como fruto de amadurecimento ou avivamento, mas por imitação daquilo que grupos religiosos modernos têm praticado e que supostamente tem trazido a eles sucesso. Temos visto igrejas perdendo sua identidade na busca deste falso sucesso. A Igreja Presbiteriana Conservadora do Brasil não pode se deixar levar por esses modismos, não pode ceder às pressões. É preciso manter seus marcos antigos bem firmados, mesmo diante de tantas pressões, sejam elas externas ou até mesmo internas. Já temos tantas igrejas iguais, por que teríamos mais uma? Como diz nossa última pastoral, o momento não é de cavar novos poços à procura de água nova, mas é tempo de tirarmos os entulhos dos antigos e bebermos da antiga água. Vejamos alguns destes marcos: 1. Teologia – Muitos são os ventos de doutrina que têm tomado conta do cenário teológico. Igrejas outrora firmes na defesa da Teologia Reformada, infelizmente, têm se deixado levar por teologia da prosperidade, movimento de crescimento de igreja, G12, maldições hereditárias e outras. Não podemos nos esquecer que nossa igreja surgiu exatamente num contexto de debate teológico. Cabe então, diante da situação, questionarmo-nos: Como está hoje a nossa amada igreja? Como está sua teologia? Como está nossa unidade doutrinária? No papel ainda somos coesos, mas podemos afirmar que o somos também na prática?  Vê-se, pois,  quão importante é para a nossa igreja investir na sua Casa de Profetas, quão importante é manter uma instituição que forme pastores dentro de uma unidade teológica sólida e em condições de batalhar contra os ventos de doutrina. Vê-se também quão importantes são nossos encontros de líderes para que estejamos nos reciclando, e nos admoestando, com amor, uns aos outros, como nos adverte o autor da Epístola aos Hebreus (Hb 10:25). Vê-se ainda quão importante é para cada ministro cumprir o que prometeu em sua formatura. Diz o compromisso: “Ao receber das mãos da Congregação do Seminário Presbiteriano Conservador o diploma que me habilita a candidatar-me ao santo ministério, comprometo-me a ser um servo fiel da Palavra de Deus e a prosseguir nos estudos da mesma e nos estudos teológicos e a depor aos pés de Jesus Cristo, meu Deus e meu Salvador, e ao serviço da Sua igreja todas as conquistas do saber que me forem concedidas pela munificência divina.” Com as palavras acima cada ministro se comprometeu, entre outras coisas, a continuar estudando a Palavra de Deus e a sua teologia. É mister que os ministros cumpram com seu compromisso, para que com uma Igreja devidamente ensinada, tenhamos a esperança de haver sempre entre nós quem nos aponte os marcos, para que não nos afastemos deles. Nossa igreja surgiu exatamente num momento em que uma doutrina estranha estava sendo tolerada pela igreja mãe. Remover os marcos teológicos de nossa igreja implica descaracterizar a Igreja Presbiteriana Conservadora do Brasil. 2. Liturgia – A cada dia que passa temos visto, em grupos religiosos, o culto ser transformado em um show. Deus tem deixado de ser o centro do culto, lugar este que tem sido ocupado pelo homem. O culto tem deixado de ser um ato de adoração para se transformar em entretenimento. Infelizmente, o objetivo não tem sido mais o de adorar a Deus, o de apresentar os corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, mas o de satisfazer ao homem, entretendo os participantes. Esta é uma forma de culto que tem agradado ao homem, que o atrai e, por isso, é defendida por muitos líderes religiosos. O aparente crescimento que este tipo de liturgia proporciona tem levado muitas igrejas tradicionais a mudar sua forma original de culto. Em nosso último encontro de líderes ficou estabelecido que a liturgia reflete a teologia. Sendo assim, um modelo litúrgico foi adotado naquela ocasião e referendado pelo Sínodo. A questão é: Temos seguido esse modelo? Nossos cultos têm refletido a Teologia Reformada? O objetivo tem sido o de adorar a Deus ou o de agradar as pessoas? Tem havido unidade nesta área em nossas igrejas? A grande verdade é que esta forma de culto adotada por grupos religiosos, que é muito agradável aos homens, não reflete o ensino das Escrituras (Isaías 6, entre outros textos). Não deixemos que este marco antigo seja removido. Pelo contrário, vamos batalhar para que ele seja cada vez mais firmado. Não podemos cultuar a Deus segundo o que nos agrada, mas devemos nos agradar em o servirmos segundo a sua Palavra. Vamos lembrar nossas igrejas de que Arão e Saul tinham boa intenção, mas que Deus se agrada de obediência mais do que de sacrifício. O tempo exige que ensinemos o nosso povo que o nosso Deus se agrada da obediência. “Se me amais, guardareis os meus mandamentos”. (Jo 14:15); “Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças…” (2ª Tm 4:3) Não podemos ser líderes que reflitam a vontade dos homens, mas, antes, a vontade de Deus. 3. Evangelismo – O evangelismo do final do Século XX tem se tornado cada vez mais pragmático. A busca por números tem feito com que líderes busquem métodos que garantam o crescimento. A regra geral tem sido a seguinte: “Se alcança as pessoas é porque é correto”. A Igreja Presbiteriana Conservadora do Brasil tem prezado antes pela qualidade do que pela quantidade, e isso não pode mudar. A Pastoral do Primeiro Presbitério  diz: …”Se precisar, para viver, de afrouxar doutrinas, de suplicar lamurienta que os crentes permaneçam em sua grei, ou de tolerar dúvidas e titubeações, abrirá mão da própria existência e enrolará a bandeira que ora tremula, vencedora, no alto dos seus torreões de ideal e fé” (O Presbiteriano Conservador, julho de 1940, p.2). Nosso padrão de avaliação antes que o de número deve ser o de qualidade. Já se disse que qualidade pressupõe quantidade. O que isso quer dizer? É necessário refletirmos profundamente sobre afirmações como essas. Caso essa tese seja verdadeira, temos de admitir que maior qualidade deve haver na Igreja Católica Romana, no Islamismo, que é a religião que mais cresce no mundo atualmente, no Mormonismo, na Igreja Universal do Reino de Deus, etc. É verdade que não podemos nos acomodar e usar a qualidade como desculpa para a falta de trabalho e vida de testemunho. O que precisamos fazer é trabalhar, dentro dos padrões reformados, mantendo a identidade da Igreja. Viver de modo digno da nossa vocação e ser testemunhas vivas, andando como corpo bem ajustado, não deixando que uma atitude demagógica de afirmar que temos a melhor doutrina, sem, no entanto, nos guiarmos por ela, esteja presente em nós. Precisamos parar de questionar o porquê da nossa Igreja não crescer como gostaríamos, e, ao invés de nos lançarmos às críticas, lançarmo-nos ao trabalho. E se insistimos em indagações, deveríamos, então, nos perguntar: Por que a Igreja Conservadora ainda não deixou de existir? Aliás, alguém já fez esta pergunta. E a constatação a que se chega é a de que Deus nos tem sustentado por haver um propósito para esta tão amada Igreja! E, se como cremos, o propósito de Deus é nos manter fiéis às sãs doutrinas, vamos nos alegrar! Não sejamos como muitos dos idosos de Israel, nos dias do profeta Ageu, que choravam ao ver os diminutos alicerces do novo templo sendo lançados, mas sejamos como os outros que, aplicados ao trabalho, se alegravam e se regozijavam em cumprir a vontade de Deus, que era a reedificação do templo, ainda que sem as dimensões e o esplendor do primeiro. Convém lembrar que o templo que alguns desprezaram, por ser “pequeno”, teve a glória que o de Salomão não teve, pois foi naquele pequeno templo, mais tarde ampliado, que o nosso Senhor Jesus Cristo foi apresentado! E ainda que aos nossos próprios olhos sejamos como gafanhotos, diante daqueles que se agigantam em nossos dias, vamos nos lembrar da aliança que temos com nosso Deus de que, se guardarmos os seus estatutos para os cumprir, Ele será o nosso Deus e o Deus da nossa posteridade. Deus tem reservado um lugar para a obra Conservadora no cenário do Evangelismo Nacional. E se ela ainda existe é porque Deus a tem usado para a implantação do seu reino. Ela ainda existe porque até aqui tem lutado para não deixar que seus antigos marcos sejam removidos. 4. Vigilância – Esta luta exige de nós uma série de cuidados, dos quais destacaremos alguns: Em primeiro lugar, precisamos trabalhar pela reforma da Igreja, mas sempre contra as inovações. É preciso que haja muito cuidado com as mudanças, por mais simples que sejam, uma vez que temos visto igrejas, outrora firmes, trilhando caminhos hoje muito distantes de seus marcos antigos, tendo este desvio começado com a introdução de pequenas inovações. Outra coisa a fazer é cuidar da nossa unidade. Paulo nos adverte a estar firmes em um só espírito, como uma só alma, lutando juntos pela fé evangélica (Fp 1:27). Segundo o apóstolo, isso é viver de modo digno do Evangelho. Ele continua e diz, a este respeito: “Se há alguma exortação em Cristo, alguma consolação de amor, alguma comunhão do espírito, se há entranhados afetos e misericórdias, completai a minha alegria, de modo que penseis a mesma cousa, tenhais o mesmo amor, sejais unidos de alma, tendo o mesmo sentimento. Nada façais por partidarismo ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo. Não tenha cada um em vista o que é propriamente seu, senão também cada qual o que é dos outros” (Fp 2:1-4). A luta para cumprir os preceitos estabelecidos neste texto  deve ser intensa, pois sem ela não haverá a tão necessária unidade. Cumprir estes preceitos não é tolerar o erro e deixar de apontar o que precisa ser mudado; pelo contrário, a crítica é muito proveitosa quando feita em amor e à pessoa envolvida. No entanto, quando ela é feita a terceiros, provém de uma sabedoria que não é do alto, mas, pelo contrário, é terrena e demoníaca, segundo nos diz Tiago, no capítulo 3, versículos 13 a 18 de sua epístola. O mesmo Tiago adverte-nos a não falarmos mal uns dos outros, pois, fazendo isso, nos colocamos no lugar de juizes e não de observadores da lei (4:11-12). No que diz respeito aos ministros, já há uma decisão no sentido de se ajudarem em correção. No Primeiro Encontro de Líderes, os oficiais ali presentes assinaram a seguinte declaração, que posteriormente foi referendada pelo Sínodo: Resolvemos reconhecer as nossas falhas e renovar diante de Deus e da igreja os nossos propósitos. E, para tanto, assumimos o compromisso de : 1. Ajudar os colegas com amor e respeito; mas, com franqueza, apontar suas falhas, pessoalmente e nos presbitérios, para que as corrijam para o bem da igreja e o bom nome do ministério; 2. Considerar todas as críticas que nos forem dirigidas; 3. Ser rigorosos quanto a nós mesmos, dedicarmo-nos com zelo e piedade ao pastorado e ao estudo da Bíblia, preparando convenientemente cada estudo a ser apresentado à Igreja; 4. Ser rigorosos no exame de relatórios apresentados aos concílios; 5. Reconsiderar sobre a vocação, caso haja reiterados testemunhos da igreja contra o nosso ministério. Além disso, reconhecemos a necessidade e a importância dessas reuniões para termos um ministério unido, coeso e eficaz. Esse, irmãos ministros, é um compromisso de todos nós. Para concluir, rogamos, irmãos, que não removamos os marcos antigos, antes os firmemos ainda mais para que a Igreja Presbiteriana Conservadora continue cumprindo o seu papel de batalhar pela fé. Que cada dia vejamos esta fé sendo testemunhada de modo cada vez mais eficaz. Não nos deixemos esmorecer pelas dificuldades que, porventura, nos sobrevenham, seja pela nossa pequenez ou por questões que surjam em nosso meio, com o intuito de nos abalar. Façamos nossas as palavras proferidas no sermão de abertura desta reunião: “É Jesus quem faz a obra e vai à nossa frente”. Mais do que nunca, a Igreja Presbiteriana Conservadora do Brasil está se despertando para o trabalho. “Ao que está assentado no trono e ao Cordeiro, seja o louvor e a honra e a glória e o domínio pelos séculos dos séculos” (Ap 5:13). Amém!”.