PASTORAL 1994
28 de junho de 2017
PASTORAL 2000
28 de junho de 2017

A BATALHA CONTINUA

(PASTORAL 1997 – Rev.  Edival José Vieira)

 

Cinqüenta e sete anos já se passaram desde que a bandeira do conservantismo presbiteriano foi erigida no solo de nossa pátria. Hoje, já passadas mais de cinco décadas, continuamos na trilha de nossa denominação, no propósito de manter essa bandeira içada num lugar de destaque, testemunhando, dessa forma, que continuamos na batalha da fé que uma vez foi dada aos santos. Entendemos que essa bandeira não pode ser substituída e nem a nossa batalha pode mudar a sua ênfase. Não é tempo de mudarmos os marcos antigos (Pv 22:28), mas é tempo de firmarmos cada vez mais estes marcos (Is. 54:2); não é tempo de cavarmos novos poços à procura de uma nova água, mas é tempo de tirarmos os entulhos dos antigos e nos abeberarmos da antiga água (Gn 26:18,19); não é tempo de procurarmos novos caminhos para a Igreja, mas é tempo de permanecermos naquilo que aprendemos e de que fomos inteirados, sabendo de quem o temos aprendido (II Tm 3:14); não é tempo de mudanças de alicerces (Ef. 2:20; I Co 2:11), mas é tempo de construirmos sobre os alicerces antigos estabelecidos pela Palavra de Deus e considerados pelos fundadores da nossa Igreja, em 1940.

 

A opção dos fundadores em 1940 não foi por mais uma nova denominação, mas foi por uma nova causa, boa, justa e necessária, no contexto religioso de então. Escolheram a carta de Judas como texto norteador desta causa, cujo moto é Batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos (Jd V. 3). Constatando que esta causa continua sendo boa, justa e necessária no atual contexto religioso em que vivemos, não há como desprezá-la. Perder de vista os princípios originais é entregar a nossa amada Igreja aos perigos das inovações, os quais têm ruído os alicerces de várias igrejas da linha Reformada. Temos um lema, temos u’a marca denominacional, temos uma bandeira e isto não pode ser descaracterizado. Estes cinqüenta e sete anos de batalha pela fé já foram suficientes para que todos nós tenhamos a certeza de que foi Deus quem levantou esta causa, e a tem sustentado até hoje e a tem usado como um instrumento de bênção na expansão de Seu Reino.

 

Estamos no apagar das luzes do século XX e às portas do século XXI. Como temos acompanhado pela história da Igreja, em cada século o Cristianismo tem sido vítima de ataques satânicos, que têm trazido grandes prejuízos para a fé bíblica; e quase sempre esses ataques são contra a verdade que alimenta a vida espiritual da Igreja de Jesus Cristo, a Bíblia Sagrada. Assim como a Igreja do século XX foi atacada pelos movimentos chamados Carismático, Teologia da Prosperidade e Batalha Espiritual, todos eles surgidos de uma ênfase errada em partes isoladas das Escrituras, estamos certos de que a Igreja do século XXI continuará sendo alvo dos tais ataques. Certamente que tudo que está aí permanecerá e novas ameaças surgirão, porque isto está previsto para o período dos últimos tempos, na Palavra de Deus. Um diagnóstico destes males mostra que a origem deles deve-se ao modo como as Escrituras são tratadas. A sua negação, total ou em parte, traz a frieza da fé e do amor, causando a apostasia; e a ênfase demasiada em algumas de suas doutrinas traz o exagero, o fanatismo religioso e, por fim, as heresias. Diante do quadro religioso caótico que as Escrituras nos apresentam para o tempo do fim, como uma Igreja chamada para a defesa da fé bíblica, sentimos o peso da nossa responsabilidade e a urgência de tamanho desafio. Quanto mais se aproxima o tempo do fim, mais aumentam os adversários do verdadeiro povo de Deus, mais proliferam os pregadores do outro evangelho, crescendo com isto, a apostasia, as seitas e as heresias. Continuamos batalhando pela fé; mais do nunca, é um ministério indispensável. Não podemos depor nossas armas e assistir o triunfo dos adversários.

 

Alguém poderá questionar: O que pode representar o trabalho de uma pequena Igreja como a nossa? Por que permanecer na posição conservadora se hoje a maioria das igrejas chamadas tradicionais tem se tornado flexível diante do inovacionismo moderno? Se nossa Igreja não cresce, isso é um apelo para mudanças? Aliás, estas questões já têm sido levantadas. Podemos responder à primeira questão dizendo que nem tudo que é pequeno é sem valor: Assim como o Espírito Santo teve um propósito para a pequena carta de Judas, assim o Senhor poderá ter um propósito para uma pequena Igreja que quer realizar um ministério baseado no que Judas escreveu. Bem sabemos que não estamos sós nesta batalha; Deus tem os Seus soldados lutando por esta fé por toda a face da terra, e nós estamos somando forças com eles. Quanto à segunda questão, é nosso entendimento que não devemos ceder. Se as nossas estruturas vêm da Palavra de Deus, então não há como sofrer mudanças. Quanto à falta de crescimento, com certeza isso não decorre das estruturas, mas das estratégias de trabalho; decorre da falta de compreensão da própria mensagem de Judas no que seja batalhar pela fé; se há falta de sucesso, certamente isso não vem da essência do nosso ministério mas do modo como o exercemos.

 

O texto de Judas esboça claramente o que é esse ministério de batalhar pela fé uma vez dada aos santos, e como veremos, é um ministério que produz qualidade e quantidade para a Igreja do Senhor Jesus, virtudes estas que qualquer pastor deseja para o seu rebanho. Para obtermos vitória neste ministério é preciso que continuemos a ver a batalha a favor da fé evangélica como uma necessidade.

 

Judas ao escrever sobre a batalha a favor da fé, disse que fez isto por necessidade (V. 3). Nós, que incorporamos a mensagem do irmão do Senhor, Judas, como a tônica do nosso ministério, temos que ver a nossa batalha como sendo uma necessidade para os nossos dias. Estamos insistindo no aspecto da continuidade, porque os iniciadores da causa conservadora tiveram compreensão dessa necessidade. Ao elaborarem a nossa Constituição e Ordem, logo na sua Introdução Geral, assim se expressaram: A Igreja tem como princípio denominacional o reconhecimento de que a adoção rigorosa e a defesa intransigente das doutrinas reveladas nas Santas Escrituras e sistematizadas nos Símbolos de Fé por ela aceitos, constituem a base fundamental de toda a vida cristã, o motivo único e permanente de sua pregação e o caminho natural de conduzir o homem à salvação em Cristo. Nas datas comemorativas do nosso Calendário Eclesiástico, tiveram por necessidade acrescentar: Segundo domingo de dezembro, dia da Bíblia, em que a Igreja, por meio de todos os seus púlpitos exaltará o valor da Palavra de Deus. No texto de Judas, a apalavra significa as Escrituras Sagradas, o conteúdo bíblico, o conjunto das verdades reveladas; neste sentido, a Bíblia é a fé evangélica, é o credo dos cristãos. Batalhar por esta “fé” foi o ministério revelado a Judas e assimilado pelos pais de nossa Igreja. Como nossa história o demonstra, foi, logo de início, um ministério que mereceu crédito e que recebeu a aprovação de Deus, produzindo muitos frutos. No primeiro ano de nossa batalha, por ocasião do primeiro Presbitério Conservador, em junho de 1940, já estávamos com mais de 1700 soldados em nosso exército. Se a nossa batalha recrudesceu com o passar dos anos, é necessário que recobremos nossas forças e continuemos firmes na trilha dos nossos pais. Não é um trabalho fácil, pela sua própria natureza. A palavra traduzida em nossa língua por batalhar vem do verbo grego epagonizomai, que significa “lutar com perseverança em defesa de”, “lutar de novo”, até ver adversário vencido. Como se vê, não é fácil a causa que escolhemos. Ser conservador é “agonizar” numa luta sem tréguas. Quem não tem a carta de Judas como uma norma de vida e um modo de fazer seu ministério, não merece ser chamado conservador. Mais do quem em qualquer outra época, a batalha a favor da fé é necessária no contexto religioso em que vivemos, e nós, mais propriamente ministros e presbíteros, devemos nos sentir desafiados e partir para a luta. A continuidade desta batalha é necessária porque vivemos:

 

  1. Numa Época de “Outras Revelações” – Temos por necessidade, como Judas o fez, anunciar que o modo especial de Deus falar conosco hoje é unicamente pelas Escrituras. A Bíblia é a nossa única regra de fé e prática. Isso não é um mero palavreado eclesiástico, é preceito firme da própria Escritura. Judas nos diz que esta “Fé” nos foi dada de uma vez para sempre ou de uma vez por todas; este é o sentido da palavra grega apax que ele usou no verso3. Se Deus ainda estivesse Se revelando hoje, que outro sentido teria esta palavra? Que outra interpretação teríamos para estas palavras do apóstolo Pedro quando diz que a Palavra do Senhor permanece para sempre? A Bíblia é um livro tão justo e tão completo como mensagem de Deus aos homens que através de Moisés, o escritor dos cinco primeiros livros bíblicos, o Pentateuco, Deus disse: nada acrescentareis à Palavra que vos mando, nada diminuireis dela (Dt 4:2) e através do último escritor, aquele que fechou o Cânon Sagrado, o Senhor disse: … se alguém lhes fizer qualquer acréscimo, Deus lhes acrescentarás os flagelos escritos neste livro (Ap. 22:18,19). Diante das tendências modernas de tirar, torcer, ou acrescentar algo em relação às Escrituras, é nossa incumbência atuarmos como vigias da verdade.

 

  1. Numa Época de Heresias – Quando indivíduos dissimulados convertem a graça de Deus em dissolução (Jd 4), tirando ou acrescentando algo em relação às Escrituras, ou ainda torcendo sua mensagem, nosso pequeno exército deve estar sempre de prontidão em defesa do nosso rebanho. Nestes tempos de muitos falsos profetas (Mt 24:11); tempos em que a sã doutrina não é suportada (II Tm 4:3); tempos de seitas e heresias (II Pd 2:1), só poderemos salvar nosso rebanho nutrindo-o com a Palavra da Verdade, e batalhando como já nos foi mandado. Não podemos encarar o grande exército adversário sem que estejamos unidos, coesos e bem armados. Sem isso, nossa causa corre o risco de fracasso.

 

  1. Numa Época de Apostasias – Quando alguns… negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo (Jd 4) – em conseqüência do esfriamento do amor por parte de quase todos (Mt 24:12) devido ao aumento da iniqüidade, estes últimos tempos são caracterizados como tempos de apostasia (II Ts 2:3). Se o herege é aquele que abraça uma fé falsa, depois de ter seguido a fé bíblica e verdadeira, o apóstata é aquele que abandona tudo e volta ao mundo de pecado. Como livrar nossas igrejas dos tais perigos? Conservar nosso rebanho bem alimentado, bem doutrinado e plenamente envolvido com a causa que o Senhor nos concedeu é o desafio de cada ministro, de cada presbítero, enfim, um desafio para todos. O poeta sacro visualizou bem a época em que vivemos, quando compôs: quantos que corriam bem, de Ti longe agora vão! Outros seguem, que também sem amor vivendo estão! Diante de tais evidências, concluímos que só o ministério de conservação do nosso rebanho exigirá especificamente de nós, ministros, grande parte do nosso tempo e do nosso esforço. Não podemos permitir que as heresias e ou a apostasia reduzam ainda mais o nosso pequeno exército.

 

  1. Numa Época de Oportunidades – Somos chamados para batalharmos na abençoada missão de salvar almas. Batalhar pela fé não é só conservar o rebanho, mas é também aumentá-lo. Judas concluiu sua mensagem com uma nota evangelística e missionária, mostrando que batalhar pela fé é também salvar almas. Se por vários anos de nossa batalha concentramos nossos esforços no cumprimento da primeira carta de Judas, firmando as estacas e doutrinando a Igreja, é tempo agora de darmos ênfase no final da carta e batalharmos na abençoada tarefa de salvar almas para Cristo. Aliás, esta é a principal tarefa dada à Igreja de Cristo aqui na terra. Nossas estatísticas mostram que não temos priorizado essa tarefa em nosso ministério. Batalhando pela fé, segundo a mensagem de Judas, em cinqüenta e sete anos de existência, nossa Igreja teria que ter, além de qualidade, também quantidade. É tempo de mudarmos a ênfase; precisamos considerar com apreço o final da mensagem de Judas e apiedar-nos das almas (v. 22), sendo instrumentos de Deus para salvá-las (v. 23). Precisamos imitar a Igreja Primitiva que batalhava dentro desta perspectiva de perseverar na doutrina (At. 2:42) e evangelizar no templo e nas casas (At. 2:46) e o resultado era o acréscimo diário de novos membros à Igreja (At. 2:47). Almejamos ver nosso ministério conservador alcançando estas metas. Temos um sólido alicerce; resta-nos construir sobre ele um grande edifício.

 

Finalmente, uma palavra sobre os instrumentos que temos à nossa disposição para a continuidade da batalha pela fé:

Nosso Seminário – é urgente a necessidade de promovermos campanhas em cada Igreja para o surgimento de novas vocações. É necessário que formemos nossos candidatos com a visão de um ministério que não só conserva mas que também aumente o número de conservadores; é daquela casa que precisam sair os novos pastores que vejam a continuidade desta obra como necessária; que sejam servos de Deus que saibam manejar bem a Palavra da Verdade; homens comprometidos corpo e alma com a causa conservadora. Numa Igreja onde as inovações e os entretenimentos são rejeitados, temos que prevalecer pela eficiência na pregação. Se não formos bons nesse mister, que outra coisa temos a oferecer?

 

Os Encontros de Reciclagem – Num mundo em evolução, não podemos ficar parados no tempo. Se não avançarmos na conquista do saber, expomos nosso rebanho à desnutrição. No mundo moderno de hoje, quem não se habilita não acha mais o seu espaço, seja em qual área de atividade for; não é diferente no ministério. Nossos encontros anuais de reciclagem se tornam cada vez mais necessários e obrigatórios para a nossa liderança. Nosso exército que batalha é pequeno e, por isso, temos que compensar com eficiência, ou então seremos completamente desqualificados.

Obra Missionária – É um outro instrumento que tem sido usado para que o testemunho conservador chegue a outros lugares do nosso país. Louvamos a Deus pelo que já foi alcançado até aqui. Contudo, é necessário que continuemos a aperfeiçoar esta obra. É preciso que criemos uma consciência missionária no âmbito da denominação, procurando envolver a maioria do nosso povo com as missões. Nossas igrejas precisam se tornar missionárias de visão e de contribuição. Já ficou provado, nestes poucos anos da existência do nosso Departamento Missionário, que esta é uma atividade que traz crescimento para a Igreja, e, portanto, merece todo o nosso apoio e incentivo.

Jornal Conservador – É o instrumento que serve para divulgar nossa batalha e os resultados dela, nos diversos campos onde estão os batalhadores; serve para divulgar nossa Fé Reformada e nossos Princípios Denominacionais. As páginas deste veículo de divulgação devem sair repletas de evidências de que de fatos estamos batalhando. Se cada obreiro conservador reservar um espaço no nosso Jornal para publicar os resultados de sua batalha, certamente que pouparíamos nosso redator, que se vê muitas vezes obrigado a lançar mão de material importado, algumas vezes até traduzindo, para preencher nossas páginas. São matérias ótimas, porém, não refletem a nossa luta. Será que não somos capazes de produzir coisas boas? Conservadores! Usemos melhor nosso órgão de divulgação.

Sentimos, neste Concílio, que Deus está  nos conduzindo para um futuro promissor e cheio de esperança. As mensagens proferidas pelos nossos novos ministros, durante as práticas devocionais, da primeira à última, nos deram a certeza de que a ortodoxia continua sendo o nosso brado mais alto; nos deram a certeza de que o nosso Seminário, centro de preparação teológica de nossos  ministros não mudou de posição e nem de ênfase; nos deram a certeza de que a Bíblia como a fiel e infalível Palavra de Deus continua sendo a fonte norteadora de nosso ministério, e o centro da nossa pregação; nos deram a certeza de que estamos na trilha dos nossos pais, acreditando no sucesso e nas bênçãos de um ministério conservador; nos deram a certeza de que estamos construindo um grande edifício sobre as bases sólidas que nos foram legadas no passado.

Sentimos que já está havendo uma volta para a parte final da mensagem de Judas, na sua visão de ministério que batalha pela fé, pois a obra missionária de nossa Igreja mereceu, neste Sínodo, todo nosso apreço e especial atenção. Esta é uma clara evidência de que estamos mudando de estratégia. Este é um dos caminhos do crescimento almejado por todos nós. Nossas estatísticas continuam a nos desafiar para um maior arrojo e maior intrepidez no trabalho da evangelização. Devemos direcionar nosso esforço para esta obra em nossas igrejas locais. Um trabalho evangelístico planejado, associado ao trabalho do nosso Departamento Missionário, em breve tirará nossas estatísticas da casa dos três mil membros. Se houver necessidade de mudanças em nossa estratégia de trabalho, mudemos. Conservemos aquilo que não pode ser mudado e mudemos aquilo que não deve ser conservado.

Continuemos a batalhar pela fé, e Deus fará da Igreja Presbiteriana Conservadora do Brasil um rebanho cada vez mais sadio, criado com a sã doutrina, e um exército cada vez mais numeroso para o serviço do Reino de Deus. Deus permita que na próxima reunião ordinária do nosso Sínodo, já no século XXI, nosso regozijo seja ainda maior, pelos resultados da nossa batalha.

Um modo apropriado de terminarmos esta Pastoral é como o servo do Senhor, Judas, terminou sua escrita sagrada sobre a batalha da fé, com esta doxologia, exaltando aquele que nos arregimentou para a batalha: Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeços e para vos apresentar com exultação, imaculados diante da sua glória, ao único Deus, nosso Salvador, mediante Jesus Cristo, Senhor nosso, glória, majestade, império e soberania, antes de todas as eras, e agora, e por todos os séculos. Amém! (Jd Vv 24,25)