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 Edival José Vieira

            Cinqüenta e nove anos já se passaram desde sua fundação em 11 de fevereiro de 1940, e a nossa Igreja vem mantendo a sua marca de identidade denominacional: A Batalhar pela Fé uma vez dada aos Santos (Jd 3).        Mantém-se firmada na mesma coluna erigida pelos fundadores que, ao elaborarem a Constituição e Ordem, assim se expressaram com respeito às Escrituras Sagradas e à novel Igreja: A Igreja tem como princípio denominacional o reconhecimento de que a adoção rigorosa e a defesa intransigente das doutrinas reveladas nas Santas Escrituras e sistematizadas nos Símbolos de Fé por ela aceitos, constituem a base fundamental de toda a vida cristã, o motivo único e permanente de sua pregação e o caminho natural de conduzir o homem à salvação em Cristo (Introdução Geral de nossa Constituição e Ordem).

A própria Bíblia afirma que há uma variedade de ministérios a serem realizados na esfera da Igreja cristã e, com certeza, para atender a essa variedade de ministérios, Deus tem permitido o surgimento das diversas denominações, cada uma com uma ênfase, com uma marca denominacional.

Nossa igreja é bem pequena e isso talvez se deva ao fato de que não surgiu com o trabalho missionário ou com o trabalho de evangelistas, mas com o trabalho de vigias, de atalaias da verdade. Será que alguém negaria a eficácia desse trabalho? Será que alguém deixaria de reconhecer a importância de um ministério com esse propósito? Uma vez que Deus tem sustentado até aqui, e de maneira muito digna, o ministério conservador, isso prova que Ele o tem reconhecido e abençoado.

Uma avaliação apenas pelo número de membros, nossa Igreja não teria nenhuma importância dentro do quadro denominacional brasileiro. Há até uma semelhança de tamanho com a Carta de Judas, que é seu texto chave e onde está o seu moto. Assim como a curta mensagem de Judas teve seu lugar dentro do Cânon das Escrituras Sagradas, assim também, nossa denominação tem seu relevante lugar dentro do quadro denominacional de nosso país. Assim como o Espírito Santo usou Judas para escrever uma mensagem recomendando a vigilância sobre a Fé Cristã, assim também hoje, Deus pode usar uma pequena denominação para cumprir, com ênfase, o que Judas escreveu. Não reconhecer a importância deste trabalho e não reconhecer a importância do ministério de Judas é desprezar o valor de sua pequena Carta.

Neste contexto dos últimos tempos de que a Bíblia tanto nos exorta, tempo em que não sofrerão a sã doutrina (II Tm 4:3); tempo em que surgiriam muitos falsos profetas (Mt 24:11); tempo de apostasia (II Tes 2:3); tempo de heresias (II Pd 2:1); tempo do outro evangelho (Gl 1: 6-7), tudo isso, faz aumentar nossa responsabilidade e nosso dever como igreja chamada para batalhar pela fé uma vez dada aos santos. Com tantos ministérios falsos batalhando o tempo todo, tentando impedir a divulgação da verdadeira fé cristã, não haverá descanso para os conservadores; não haverá trégua para os vigias e atalaias da verdade.

É um ministério desafiador. Além de termos que competir com adversários cada vez mais numerosos, implica também a necessidade de muito conhecimento, muita vivência cristã e muita pregação fiel das verdades bíblicas.

Em mais uma data comemorativa ao Dia da Bíblia, somos, mais que nunca, desafiados a batalhar a favor desta fé. No seu zelo pela Bíblia, os pais de nossa denominação colocaram na Constituição e Ordem, fazendo parte do Calendário Eclesiástico, este princípio a ser observado: Segundo domingo de dezembro – Dia da Bíblia, em que a Igreja, por meio de todos os seus púlpitos exaltará o valor da Palavra de Deus, fazendo ampla divulgação da mesma. Pela graça de Deus, isto vem sendo cumprido, não só no segundo domingo de dezembro mas semana após semana, mês após mês, ano após ano em todos os nossos púlpitos.

A Carta de Judas continua sendo um texto relevante para nossa Denominação. Esta Carta que motivou nossa luta a favor da fé bíblica ainda dentro da Igreja Independente, continua sendo qual bandeira a frente dos conservadores. Ela que nos deu o espírito de luta: que nos deu um propósito denominacional, derivado dos termos Conservados (v. 1) e conservai-vos (v. 21), tem nos dado até hoje grande zelo para com as doutrinas bíblicas; assim a ortodoxia tem sido o brado mais forte de nossos púlpitos.

Judas, verso 3, é propriamente o moto de nossa Igreja. Alguramos que este moto não seja apenas para registro em papel ou para destaque no logotipo de nossa Denominação, mas que seja realmente uma filosofia de vida de cada conservador e um modo de pregar de cada um de seus ministros. O autor deste artigo, certo dia encontrou um colega, pastor presbiteriano, que conhece o lema dos conservadores: este, ao cumprimentá-lo, perguntou: está aqui hoje cumprindo Judas 3? E a resposta foi – é exatamente isso que me trouxe até aqui. Portanto, a nossa vida, no seu todo deve refletir essa batalha em prol da verdade de Deus. A Bíblia é esta fé que foi dada aos santos. Ela é o Credo dos cristãos. É neste sentido que Judas usou a palavra  , no seu sentido objetivo, ou seja, aquilo em que cremos. Assim como a fé islâmica está codificada no Corão, a fé espírita no Evangelho Segundo Alan Kardec, assim a fé cristã está preceituada na Bíblia, toda ela, Velho e Novo Testamentos, como a Palavra revelada e inspirada de Deus pelo Espírito Santo  (II Tm 3:16; II Pd 1: 20-21).

A Palavra de Deus necessita de defesa? Objetará alguém. Se é a verdade de Deus, por si só Ela não está protegida?

Podemos reafirmar que a Bíblia é a Palavra de Deus e nesta qualidade, permanece para sempre (I Pd 1:23, 25). Não é que Ela subsiste pela defesa humana: subsiste porque é a Palavra eterna de um Deus que não muda. Mas como a Sua propagação é feita para os homens e através dos homens, Ela tem sofrido todo tipo de ataques de adversários, como o tem demonstrado a história. Os que crêem em sua veracidade, integridade e inspiração plena, se levantam e simplesmente declaram o que Ela é. Estar do lado, é defender. O apóstolo Paulo tinha tanta convicção da mensagem que lhe foi revelada, que ao confrontar os falsos pregadores e a falsa pregação disse: mas ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema (Gl 1:8). Isto não é defesa da Verdade, a ponto de anatematizar quem tentasse mudá-la?

Numa Época de Revelações – temos por necessidade, como Judas o fez, anunciar que não há outras formas de Deus falar conosco além das Escrituras. A Bíblia é a nossa única regra de fé e prática. Isso não é mero jargão da teologia, é a própria Bíblia que o afirma. Judas disse que esta fé (As Escrituras) nos foi dada uma vez para sempre ou de uma vez por todas; este é o sentido da palavra grega apax que ele usou no verso 3. Se Deus ainda estivesse se revelando, que outro sentido teria essa palavra do irmão do Senhor? Que outro sentido teria a palavra de Pedro que disse que a Palavra do Senhor permanece para sempre? A Bíblia é um livro tão justo, tão completo como mensagem de Deus aos homens que Deus disse ao primeiro escritor dela: Não acrescentareis a palavra que  vos mando nem diminuireis dela (Dt 4:2), palavras ditas a Moisés; também disse ao último escritor, aquele que fechou o cânon Sagrado, no último capítulo e nos últimos versículos: … se alguém acrescentar alguma coisa, Deus fará vir sobre ele as pragas que estão escritas neste livro; e se alguém tirar quaisquer palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte da árvore da vida  (Ap 22: 18,19).

Numa Época de Heresias – E os hereges formam hoje um grande exército que se levanta ou para acrescentar ou para tirar algo em relação a Palavra de Deus, temos que nos arregimentar, como uma Igreja que se colocou na posição de atalaia, e colocar em prática o que Judas nos mandou: batalhar diligentemente a favor da Verdade divina.

Judas empregou uma palavra usada nas competições que envolviam lutas contra adversários. A palavra batalhar na sua forma grega significa agonizar, destacando, desta forma, a agonia do competidor e seu empenho em se defender dos ataques do adversário e contra-atacar até vencer a luta, ganhando a competição. Assim, também, deve ser nossa luta contra os adversários da Verdade.

Como se vê, não é fácil a causa conservadora do ponto de vista do nosso texto moto. Não é fácil a tarefa que escolheram em 1940. Não se espera de um conservador menos do que isso. Ser conservador é agonizar numa luta sem trégua. Nossa pergunta é: Será que todos os conservadores vêem sua causa, sua igreja desse ponto de vista?  Uma outra pergunta para nós ministros: Será que todos os pastores estão na frente de seus rebanhos, agonizando mesmo, na luta pela causa de Cristo? Será que muitos não estão agonizando na busca de seus próprios interesses?  Será que a falta até mesmo de conservação do rebanho que temos, para não falar da falta de crescimento de nossas igrejas, não é a negligência de uma prática verdadeira do que Judas nos ensinou?

Quem não tem a Carta de Judas como um princípio de vida e de ministério, não merece ser chamado conservador.

Numa Época de Apostasias – somos chamados para agonizar na defesa e sustento do rebanho. Se a heresia é a pregação de uma fé falsa, a apostasia é o abandono definitivo da fé, ou seja, a negação da Bíblia, da igreja e uma  volta ao mundo do pecado. Para se conservar uma igreja firme na fé, no amor; uma igreja bem nutrida espiritualmente e bem doutrinada, requer grande esforço, especialmente da liderança.

Judas fez menção dos apóstatas do passado, no verso 5; dos israelitas que descreram, no verso 6; dos anjos que também se apostataram: todos eles recebendo o justo castigo. Hoje, quanta apostasia! Quantos que corriam bem, de Ti (Deus) longe agora vão! Outros seguem, que também sem amor vivendo estão! Só com uma luta agonizante podemos salvar nossas igrejas das heresias e das freqüentes apostasias. Que desafio para os conservados por Jesus Cristo!

Numa Época de Esfriamento do Amor (Mt 24:12) – Judas nos exorta a que nos conservemos no amor de Deus (v. 21).

O amor, que é o caminho mais excelente para a Igreja (I Cor 12:31); que é o maior dos dons (I Cor 13:13); que é o vínculo da perfeição (Cl 3:14); que é a marca que identifica os cristãos (Jo 13:35), se esfriaria de quase todos, segundo o próprio Jesus. Essa tremenda onda de apostasias e heresias e o crescimento da iniquidade, só podem trazer como conseqüência esse esfriamento. Muitas igrejas, para vencer o gelo, ao invés de voltarem para a fé bíblica, partem para as inovações; para um tipo de aquecimento que não vem da verdadeira fonte. Os entretenimentos não santificam e nem produzem o verdadeiro amor bíblico no coração dos crentes. Eis mais esse desafio para nós conservadores!

Numa Época de Oportunidades – Judas nos concita a agonizarmos na tarefa abençoada de salvar vidas (v. 22). É importante notar que Judas termina suas exortações com uma nota evangelística e missionária. A mensagem bíblica não só preserva como também salva. Batalhar pela fé é também ganhar almas para Cristo. Se ao longo destes cinqüenta e nove anos de existência nos fixamos no início da Carta de Judas, no verso 3, que ótima oportunidade para nos fixarmos no final da Carta, no verso 23, e agonizarmos também nesta obra. Uma vez que nos julgamos firmes em nossos alicerces, seria uma excelente ênfase a do final da Carta de Judas. Talvez assim deixemos  de nos agonizar – no sentido comum do termo – no futuro – ao conferir as estatísticas trienais em nossas reuniões de sínodo.

O verso 22 diz:  apiedai-vos de alguns que estão duvidosos. Com a diversidade de pregadores e pregações, o que não faltam nos tempos atuais são as dúvidas. Nós julgamos ter a mensagem pura da Palavra de Deus; a verdadeira Fé; mas será que temos saído para levá-la ao mundo que nos cerca?  Será que não temos permitido que o outro evangelho vá a nossa frente arrebatando as almas?

O verso 23 diz: e salvai-os arrebatando-os do fogo. O paralelismo de Judas vem de passagens como Zacarias 3: 2-4 e Amós 4:11, onde pessoas são salvas de uma destruição como um tição arrebatado do fogo. O juízo de Deus está para se manifestar sobre este mundo pecaminoso. Muitos dos eleitos de Deus ainda serão alcançados pela pregação da Palavra. Por que não por nós, mais especificamente, a quem Deus confiou um ministério de pregação da Sua Fiel Palavra? Batalhar pela fé é fazer uso dela para levar os escolhidos de Deus a uma gloriosa salvação. É uma tarefa agonizante, pois implica tirar as pessoas do fogo ou do afogamento neste mar mundano de drogas, vícios, prostituição, etc.  Que outro desafio para nós conservadores! Quanta gente na zona de perigo!

Pastores e Igrejas Conservadoras, honremos esse nome! Honremos a Bíblia! Conservemo-nos na fé, no amor e sejamos instrumentos nas mãos de Deus para salvar vidas. Sejamos conservadores como Judas pediu. Amém!

*Rev. Edival José Vieira é pastor da Primeira Igreja Presbiteriana Conservadora de São Paulo.

 

(Publicado em O Presbiteriano Conservador  na edição de   Novemnbro/Dezembro de 1995)