LIÇÕES DA HISTÓRIA

 João Alves dos Santos

De todos os fatos relacionados com a formação da IPC do Brasil, apresentados no artigo "A Questão Doutrinária", podemos tirar, dentre outras, as seguintes lições:

1. É impossível conciliar firmeza doutrinária com tolerância.
Fica evidente, pelo que se viu nos textos mencionados naquele artigo, que o que o Sínodo tentou nas três reuniões em que tratou da "questão doutrinária" foi encontrar uma fórmula pela qual pudesse manter a posição oficial de ortodoxia da Igreja, nunca negada, pelo contrário, sempre reafirmada (inclusive na doutrina das penas eternas), e ao mesmo tempo tolerar no seu seio aqueles que não eram ortodoxos nessa matéria.

Tentativas - Esse esforço pode ser visto a partir da reunião ordinária de 1938, quando surgiu a questão, através das duas consultas apresentadas. A 1ª, encaminhada pelo Rev. Alfredo Alípio do Vale, perguntava: "a) Podem os Presbitérios licenciar ou ordenar candidatos ao santo ministério que negam as penas eternas e crêem no aniquilamento da alma? b) Podem continuar no ministério de nossa Igreja ministros que defendem idéias semelhantes?" A 2ª, apresentada pelo Presbitério do Oeste, era de teor semelhante: "Um presbitério deve licenciar em prova para o santo ministério um candidato que, ao ser examinado em seus conhecimentos teológicos, afirmou que não tem opinião formada sobre as doutrinas das Penas Eternas e Destino da Alma dos ímpios, e tendo (sic) simpatia pela teoria do aniquilamento?"

À consulta do Rev. Vale, a Comissão de Papéis e Consultas deu parecer pela negativa, a ambos os itens; isto é, era de opinião de que nem poderiam os Presbitérios licenciar ou ordenar candidatos nessa situação, nem poderiam continuar no ministério aqueles que tivessem essas idéias. Esse parecer foi aprovado por todos, com exceção de 5 ministros. À consulta do Presbitério do Oeste, a Comissão deu parecer igual, isto é, também pela negativa, mas o Sínodo rejeitou o parecer e aprovou um substitutivo, de teor diferente: "O Sínodo, neste particular, entrega ao critério do Presbitério a solução dos casos específicos".

A discussão de ambos os pareceres foi feita em conjunto e a sua votação em seqüência imediata. Embora o teor de ambas as consultas fosse praticamente o mesmo, até no entender da Comissão que as examinou, deu-se tratamento diferente a cada uma delas. Pode-se notar, de início, por essas decisões (no mínimo estranhas, quando comparadas uma com a outra), que se quis manter a posição de fidelidade aos Símbolos Doutrinais da Igreja, mas ao mesmo tempo não dar uma resposta final, decisiva, ao Presbitério. A teoria estava clara, mas a sua aplicação não. Fez-se distinção, na análise do assunto, entre "negar" e "não ter opinião formada" e entre "crer no aniquilamento da alma" e "ter simpatia pela teoria do aniquilamento", (cf. Rev. Bento Ferraz, artigo "O Presbiteriano Independente", in O Presbiteriano Independente de 15/03/38, p. 1), tecnicidade desnecessária quando realmente se quer firmar posição e, sem dúvida, pouco convincente.

Como escreveu o Rev. Raphael Camacho, o substitutivo foi aprovado, conforme os dizeres do Rev. Antônio Alvarenga, que o propôs, para não dividir a Igreja, , uma vez que, ao discutir-se o parecer, alguns membros do Sínodo declararam que sairiam da Igreja, chegando a afirmar: "Se o Rui não for licenciado, nós também não podemos ficar no ministério de nossa Igreja" (in "Artigo Inútil", O Presbiteriano Independente, de 15/08/38, p. 7). Abriu-se caminho para que o candidato objeto da consulta fosse licenciado e depois ordenado, sem maiores dificuldades para o Presbitério. Quando surgiram dúvidas sobre a legitimidade da sua licenciatura, a Comissão que a efetuou simplesmente respondeu: "O Sínodo após longa e exaustiva discussão da matéria deu o seguinte parecer: ‘Fica ao critério do Presbitério tais casos específicos’. Se o Sínodo deu liberdade ao Presbitério para aceitar e rejeitar, como poderia agora censurá-lo por haver licenciado o candidato? Do exposto se verifica claramente que o Presbitério d’Oeste não infringiu nenhuma lei (in O Estandarte, de 11/06/38, p.2).

Nas reuniões extraordinárias subsequentes, o que se notou foi sempre o esforço para se encontrar a fórmula que pudesse conciliar firmeza doutrinária, na teoria, com tolerância, na prática. Propostas após propostas, substitutivos após substitutivos foram apresentados, muitos com mudanças apenas superficiais, às vezes, de simples terminologia, no intuito de se encontrar a fórmula adequada que agradasse a todos, conservadores e liberais, e evitasse a cisão. Procurava-se aquilo que o Rev. Orlando Ferraz chamou, em seu artigo já mencionado, de "a ortodoxia do amor" (in "Notas e Comentos", O Estandarte, de 11/06/38, p.1).

Segundo essa "ortodoxia", os que "zelavam da doutrina deveriam encarar com simpatia e amor os irmãos cujas idéias teológicas destoassem das tradições presbiterianas", e os que se "escandalizavam com o zelo apaixonado e um tanto amargo dos defensores da ortodoxia" deveriam, por sua vez, também "saber sofrer com humildade e paciência seus ataques" (ibid). Percebe-se a "isenção" e "imparcialidade" com que o autor se refere a ambos os grupos! Aos conservadores recomenda "simpatia e amor" para com os "destoados das tradições presbiterianas". Aos liberais, "escandalizados com o zelo apaixonado e um tanto amargo dos defensores da ortodoxia", recomenda "saber sofrer com humildade e paciência". Segundo essa "ortodoxia" - "um ponto doutrinário ou um credo, mesmo o mais puro, conquistado com o sacrifício da caridade ... deve ser reputado como a coisa mais indigna que mesmo a mais hedionda das heresias!" (ibid). O citado articulista, na sua defesa dessa "ortodoxia", recomendava para o tratamento do problema doutrinário o mesmo amor que Jesus teve para com a mulher pecadora e para com os "monstros" que O crucificaram (ibid). Estranha exegese! Não deixa de ser uma aplicação inusitada.

A fórmula de 1938 - A fórmula da reunião extraordinária de 38 decidiu que até 1942 não seriam permitidas publicações pela imprensa nem pregações pelos púlpitos que viessem a contrariar os atuais símbolos, e que não deveriam ser licenciados ou ordenados candidatos que rejeitassem os símbolos de fé em vigor, mas também que fosse nomeada uma comissão composta de três representantes de cada corrente doutrinária - a conservadora e a liberal - para apresentar ao Sínodo de 42 um projeto de nova Confissão de Fé, baseada nos Símbolos de Westminster. Novamente afirmava a posição oficial de ortodoxia da Igreja, mas acenava, para acalmar os liberais, com a possibilidade de mudança na Confissão de Fé. Esse projeto, certamente, seria a Confissão ideal para agradar a todos.

A fórmula de 1940 - A decisão de 1940, nos seus próprios considerandos, revela esse propósito de conciliação. Diz: "Considerando que a Igreja Presbiteriana Independente do Brasil é conservadora, e que deseja manter os Símbolos de Fé, representados na Confissão de Fé e Catecismos Maior e Menor; Considerando que a Confissão de Fé e Catecismos, embora susceptíveis de reforma, em pontos secundários, todavia, expressam, em substância, a interpretação fiel das Sagradas Escrituras no tocante às doutrinas tradicionais e fundamentais do Cristianismo; Considerando que a situação atual de nossa Igreja é grave, e que necessita de uma solução enérgica, mas ao mesmo tempo caridosa e tolerante; Considerando que sem um verdadeiro espírito de sacrifício e renúncia, de ambos os lados, não será possível chegar-se a um acordo: O Sínodo resolve: a) Declarar que mantém os seus Símbolos de Fé, e que os defenderá com todo o cuidado e zelo; b) Dissolver a Comissão que foi nomeada para reformar a Confissão de Fé e Catecismos; c) Reconhecer em igualdade de direitos os ministros e crentes que têm dificuldades na interpretação de alguns pontos doutrinais exarados na Confissão de Fé; d) Recomendar que os que ocupam cargos eclesiásticos que exigem ensino especial ou propaganda, mantenham em toda a sua integridade os princípios básicos doutrinários de nossa Igreja; e) Deixar aos Presbitérios o critério quanto à licenciatura e ordenação de seus candidatos.

De todas, essa nos parece a mais contraditória. Ao mesmo tempo em que declara que a Igreja "é conservadora, e deseja manter os Símbolos de Fé, representados na Confissão de Fé e Catecismos Maior e Menor" e "que a situação da Igreja é grave", diz que essa situação necessita de uma "solução enérgica, mas ao mesmo tempo caridosa e tolerante". Ainda está por ser explicado como uma decisão pode ser enérgica e tolerante ao mesmo tempo. Diz também que "sem um verdadeiro espírito de sacrifício e renúncia, de ambos os lados, não será possível chegar-se a um acordo". Confessa claramente que o que se buscava não era a verdade, qualquer que fosse o lado em que ela estivesse, mas um acordo. Esse acordo deveria implicar em concessões de ambas as partes. Era assim que a Igreja buscava firmar sua ortodoxia.

Se os considerandos eram contraditórios, mais ainda as decisões. O Sínodo resolveu declarar que mantinha os seus Símbolos de Fé, e que os defenderia com todo o cuidado e zelo, mas também que reconhecia, em igualdade de direitos, os ministros e crentes que não os interpretassem da mesma forma. Em outras palavras, a interpretação que o Sínodo fazia da Confissão de Fé não precisaria ser a mesma de seus ministros e dos crentes. O Sínodo tinha uma posição, mas o ministro poderia ter outra, divergente. O Sínodo manteria os seus Símbolos de Fé e os defenderia com todo o cuidado e zelo, mas os ministros que não quisessem, não precisariam crer com o Sínodo. Como poderia o Sínodo manter e defender sua posição, se abria para seus ministros, justamente os que deveriam fazer isso, a liberdade de nem crer nela? O que seria igualdade de direitos dos que interpretavam de outra forma? Manter sua interpretação particular e defendê-la com todo cuidado e zelo, igualmente?

Só aos que ocupavam cargos eclesiásticos que exigiam "ensino especial ou propaganda" se recomendava que mantivessem em toda a sua integridade os princípios básicos doutrinários da Igreja. O ensino que todo ministro deve fazer, do púlpito ou fora dele, como uma das suas principais atribuições, não era considerado "especial". Não precisava de integridade aos princípios básicos da doutrina.

A última decisão da fórmula foi "deixar aos Presbitérios o critério quanto à licenciatura e ordenação de seus candidatos". Não é dito o que se quer dizer por "critério", mas pela decisão do Sínodo ordinário de 1938 se pode concluir que o que se tinha em mente era deixar os Presbitérios livres para licenciar e ordenar ou não candidatos que tivessem "dificuldades na interpretação de alguns pontos doutrinais exarados na Confissão de Fé", como já tinha sido feito anteriormente. O Sínodo decidiu manter a sua interpretação dos Símbolos de Fé e defendê-la com todo cuidado e zelo, mas deixou aos Presbitérios o critério para aceitar ou não candidatos que tivessem posição diferente da sua. Estranho modo de se manter uma posição doutrinária!

O que também é estranho é que essa fórmula de "ortodoxia do amor" (seu autor foi o mesmo que preconizava essa forma de "ortodoxia") foi, pelo menos no momento da votação, aprovada por unanimidade. Parecia satisfazer a todos. Só no dia seguinte alguns perceberam que ela era irreal e inconsistente, chegando dois deles a pedir reconsideração de voto. Pensou-se, por um pouco, ter encontrado a fórmula de conciliação entre firmeza doutrinária e tolerância. Aliás, foi isso que a Comissão encarregada de avaliar o estado espiritual das Igrejas disse em seu relatório: "... a Igreja .... provou neste Sínodo ser uma Igreja ... que sabe zelar atentamente pela manutenção dos seus princípios fundamentais com firmeza, espírito de tolerância, amor cristão e sem quebra de sua unidade eclesiástica".

A fórmula não era suficiente, como se pensava. Doze dias depois de sua aprovação, a 2ª Igreja de S. Paulo se declarava desligada da Federação e começava a história da IPC do Brasil.

Mesmo depois da separação do grupo conservador, posições ainda divergentes continuaram na Igreja mãe (nem todos os conservadores saíram em 1940, aliás, poucos o fizeram) e no Sínodo de 1941, como se viu, a tentativa para se conciliar essas divergências aponta ainda para a "afirmação de firmeza doutrinária" e "tolerância caridosa".

A questão "ortodoxia versus amor" - Que alguém pode ser totalmente ortodoxo e ainda não agradar a Deus, pecando contra o mandamento do amor, é perfeitamente possível e sabido. Mas o que é realmente amar, conforme o princípio bíblico? A quem devemos amar primeiro: a Deus ou aos homens? O que é amar a Deus e aos homens? O exemplo de Cristo amando e perdoando pecadores arrependidos se aplica a essa questão? Para citar o exemplo de Cristo nesse assunto, seria mais adequado ver como Ele relacionou o amor a Deus com o modo como a Sua palavra é aceita e crida. Em João 8:31,42-45,47 Ele diz: "Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; ...Se Deus fosse de fato vosso pai, certamente me havíeis de amar; porque eu vim de Deus e aqui estou; pois não vim de moto próprio, mas ele me enviou. Qual a razão por que não compreendeis a minha linguagem? É porque sois incapazes de ouvir a minha palavra. Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe aos desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira... Mas, porque eu digo a verdade, não me credes... Quem é de Deus ouve as palavras de Deus; por isso não me dais ouvidos, porque não sois de Deus". De igual modo Ele disse: "Se alguém me ama, guardará a minha palavra... Quem não me ama, não guarda as minhas palavras; e a palavra que estais ouvindo não é minha, mas do Pai que me enviou" (João 14:23-24) Teria faltado amor a Jesus para com aqueles judeus que não eram capazes de ouvir (isto é, de aceitar) a Sua palavra? Por que Ele não os aceitou assim mesmo, tais como criam? Por que não mostrou "amor" e "tolerância" para com os que discordavam dEle?

Depois de Cristo, ninguém enfatizou mais a verdadeira ortodoxia do amor do que João, o "apóstolo do amor", como é chamado. Mas ele disse: "Todo aquele que ultrapassa a doutrina de Cristo e nela não permanece, não tem Deus; o que permanece na doutrina, esse tem assim o Pai, como o Filho. Se alguém vem ter convosco e não traz esta doutrina, não o recebais em casa, nem lhe deis as boas-vindas. Porquanto aquele que lhe dá boas-vindas faz-se cúmplice das suas obras más" (2 João 8-11). Teria João pecado contra o amor, não tolerando os que pensavam de modo diferente?

E que diz Paulo sobre o assunto de "caridade e tolerância" em matéria de doutrina? "Mas, ainda que nós, ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema. Assim como já dissemos, e agora repito, se alguém vos prega evangelho que vá além daquele que recebestes, seja anátema" (Gl.1:8-9). Paulo mesmo demonstrou sua "intolerância" contra o seu colega Pedro, também apóstolo e mais antigo do que ele no ministério, quando este se tornou repreensível em matéria de doutrina: "Quando, porém, Cefas veio a Antioquia, resisti-lhe face a face, porque se tornara repreensível... Quando, porém, vi que não procedia corretamente segundo a verdade do evangelho, disse a Cefas na presença de todos: Se, sendo tu judeu, vives como gentio, e não como judeu, por que obrigas os gentios a viverem como judeus?"(Gl. 2:11,14). O contexto mostra que a implicação do comportamento de Pedro não era de natureza ética, mas doutrinária. Era a doutrina da justificação pela fé, à parte das obras, que estava em jogo. Teria sido Paulo "descaridoso" para com seu irmão Pedro, repreendendo-o em público?

O que vem a ser caridade, nesse contexto? Não é exatamente a assim chamada "intolerância", para a correção e benefício dos que se desviam? Tolerância é sempre sinônimo de caridade ou amor? O pai tolerante, que não corrige o filho, castigando-o, se necessário, está demonstrando amor? Não é esse o modelo de Deus. Em Hebreus lemos: "e estais esquecidos da exortação que, como a filhos, discorre convosco: Filho meu, não menosprezes a correção que vem do Senhor, nem desmaies quando por ele és reprovado; porque o Senhor corrige a quem ama, e açoita a todo filho a quem recebe. É para disciplina que perseverais (Deus vos trata como a filhos); pois, que filho há a quem o pai não corrige? Mas se estais sem correção, de que todos se têm tornado participantes, logo sois bastardos, e não filhos... Toda disciplina, com efeito, no momento não parece ser motivo de alegria, mas de tristeza; ao depois, entretanto, produz fruto pacífico aos que têm sido por ela exercitados, fruto de justiça" (Hb. 12:5-8,11). Também em Ap. 3:19 Jesus diz: "Eu repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso, e arrepende-te". Este é o conceito bíblico de caridade ou amor.

Sempre que o homem quis ser "mais caridoso" do que Deus, viu-se que os resultados foram danosos. Israel quis ser mais caridoso do que Deus, não destruindo os cananitas em cuja terra passaram a habitar, conforme Deus mandara (Dt. 7:1-4). Pensou que poderia fazer melhor, "amando" aqueles a quem Deus mandou destruir, e misturando-se com eles. Terminou cultuando ídolos e oferecendo os seus próprios filhos aos demônios, como lemos no Salmo 106:34-38: "Não exterminaram os povos, como o Senhor lhes ordenara. Antes se mesclaram com as nações, e lhes aprenderam as obras; deram culto a seus ídolos, os quais se lhes converteram em laço; pois imolaram seus filhos e suas filhas aos demônios, e derramaram sangue inocente, o sangue de seus filhos e filhas, que sacrificaram aos ídolos de Canaã: e a terra foi contaminada com sangue". Não quiseram matar os ímpios, aqueles que já haviam enchido a medida das suas iniqüidades (Gn. 15:16), e acabaram matando os seus próprios filhos, como conseqüência disto. Essa é a lógica da desobediência. Isso nos lembra alguns, hoje, que combatem a pena de morte pelo princípio da caridade (pretendem ser mais caridosos do que Deus), mas defendem o aborto. Opõem-se à punição capital de um culpado, mas matam os seus próprios filhos, inocentes. A desobediência tem sempre um alto preço. É certo que o contexto dessa situação era totalmente diferente, mas o princípio ainda é o mesmo. Não há lugar para tergiversação, para falsa caridade, quando Deus exige firmeza de ação. Uma pequena concessão doutrinária, por menor que pareça, pode representar grande perda. O rompimento de um grande dique pode começar com um pequeno vazamento. A concessão de Pedro não parecia coisa tão grave e era até muito "caridosa" para com a consciência dos judeus, mas Paulo entendeu que o problema era sério. Não havia lugar para tolerância. É curioso que aqueles que pregam a caridade e a tolerância geralmente não são tão caridosos e tolerantes para com aqueles que deles divergem. Um exemplo disto pode ser visto no modo diferenciado como foram tratadas as renúncias do Rev. Otoniel Mota e do Rev. Bento Ferraz, e nos termos como o proponente da fórmula aprovada em 1940 se referiu a ambos os grupos discordantes, em seu artigo-editorial "Notas e Comentos", em outro lugar referido.

As supostas vantagens de uma "ortodoxia do amor" são ilusórias. Não produzem resultados duradouros, a não ser maléficos. Não sabemos de qualquer igreja que tenha sido beneficiada, a longo prazo, fazendo concessões em sua posição doutrinária. A não ser que se entenda como benefício exatamente o afrouxamento de posição. Também não sabemos que benefício pode ser este. A desobediência só faz acender a ira de Deus, trazendo castigo (Sl 106:40).

Muitas igrejas estão sofrendo hoje as conseqüências de concessões feitas no passado. A falta de identidade e unidade teológica é o resultado direto da prática da suposta "caridade cristã" para com os que pensam de modo diferente, em matéria de doutrina. Não só o liberalismo, mas principalmente o chamado "pentecostalismo" tem sido, hoje, fator de divisão de igrejas que não têm sido zelosas na sua posição doutrinária. O preço da pureza doutrinária, até onde ela pode ser alcançada e mantida, ainda é a eterna vigilância, ou como alguns a chamam, a eterna "intolerância". Nossa Igreja não pode abrir mão dela, se quiser continuar "conservadora".

2. A oração não substitui a ação.  
Um dos fatos que mais se destacaram nas reuniões que trataram da questão doutrinária foi a prática da oração. Além dos exercícios devocionais com que regimentalmente se começam as sessões, muitos outros momentos foram dedicados a essa prática para que se encontrasse a solução que satisfizesse a todas as correntes.

Espírito de oração - Para citar alguns exemplos, no Sínodo de 1940, antes de começar o debate sobre a moção apresentada pelo Rev. Francisco Pereira Júnior, que foi o documento que abriu a discussão do assunto na reunião, o Sínodo se pôs de joelhos para orar. Durante a discussão, sugeriu-se que um grupo de voluntários da oração se apresentasse para ficar orando, enquanto o Sínodo estudava o problema. Sete membros se apresentaram e se retiraram para uma sala anexa para orar, conforme a sugestão. Depois de votada a proposta que supostamente iria pôr fim à crise, após dois dias de debates, esse grupo de voluntários comprometeu-se a continuar orando até que fosse "restabelecida a paz da Igreja". No final da reunião, no parecer sobre o estado espiritual das igrejas, aprovou-se que "a Igreja... obteve mais um grande triunfo vencendo a referida crise no espírito de oração e com ânimo alevantado". O que se entendeu por grande triunfo foi, conforme esse mesmo parecer, que a Igreja mostrou saber "zelar atentamente pela manutenção dos seus princípios fundamentais com firmeza, espírito de tolerância, amor cristão e sem quebra de sua unidade eclesiástica". Teria sido o "espírito de oração" uma das causas que evitara a quebra da unidade eclesiástica. De igual forma, no Sínodo de 1941, quando se procurava novamente a fórmula para a paz, já que a anterior fracassara e a Igreja já estava dividida, após a discussão de muitas propostas e substitutivos, menciona-se que o Sínodo pôs-se de joelhos para pedir a direção de Deus.

Seu uso correto - Nada mais próprio, em situações como essa, tal atitude. A oração é, sem dúvida, indispensável para se tomar decisões acertadas. Todavia, ela não substitui a ação correta. Em certas ocasiões, quando a vontade de Deus é claramente conhecida através de Sua Palavra, a oração só tem lugar quando o que ela busca é a força e a sabedoria para obedecer. A oração deve ser um meio pelo qual Deus nos capacita a agir conforme a revelação que Ele nos tem dado. Orar para se encontrar soluções que contrariem a Sua palavra e até mesmo o senso comum, como a de encontrar um meio de conciliar firmeza doutrinária com tolerância doutrinária, não nos parece adequado, nem eficaz. E isto ficou provado posteriormente, pelo fracasso das fórmulas encontradas.

O exemplo de Jesus - No modelo de oração que Jesus nos deixou, Ele ensinou que devemos pedir em primeiro lugar pela vinda do Reino de Deus e logo depois, que Sua vontade seja feita. Fazer a vontade de Deus em reconhecimento e benefício do Seu Reino tem que ser o principal objetivo de nossas orações. Podemos até pedir que Ele nos poupe de ter de tomar decisões difíceis, se assim Ele quiser e for possível, mas fazer a Sua vontade tem que ser nossa última petição e desejo. É o exemplo que encontramos no próprio Senhor Jesus, na oração que expressa a Sua verdadeira humanidade: "Meu Pai: Se possível, passa de mim este cálice! Todavia, não seja como eu quero, e, sim, como tu queres"; e logo depois: "Meu Pai, se não é possível passar de mim este cálice sem que eu o beba, faça-se a tua vontade" (Mt. 26:39,42). Jesus conhecia a vontade do Pai e estava pronto a obedecê-la, embora expressasse o Seu desejo de agir de outra forma, se assim fosse possível. Tremendo mistério esse! A humanidade perfeita, que ainda treme diante do sofrimento, mas cujo prazer e deleite se concretizam em fazer a vontade do Pai! A primeira petição de Jesus não está completa sem a segunda. A vontade última de Jesus era fazer a vontade dAquele que O enviara (João 6:38).

Que a vontade de Jesus era a mesma que a do Pai com respeito à Sua morte fica evidente pelo texto de Hebreus 5:7: "... Jesus, nos dias de sua carne, tendo oferecido, com forte clamor e lágrimas, orações e suplicas a quem o podia livrar da morte, e tendo sido ouvido por causa de sua piedade, embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu". Jesus foi ouvido por causa da Sua piedade, ou, mais adequadamente, "por causa da sua reverente submissão", conforme a tradução da Nova Versão Internacional (NVI). Por causa da Sua submissão reverente ao Pai, Sua vontade era, em última instância, a vontade do Pai. É por essa razão que o autor aos Hebreus, inspirado, disse que Ele foi ouvido. Doutra sorte, pareceria o contrário. Aprender a obediência através do sofrimento significou para Jesus, na Sua humanidade, que fazer a vontade do Pai representava experimentar lutas e dor; como o é para nós igualmente, mas ainda assim, era isso também a Sua vontade. Podemos oferecer nossos desejos humanos a Deus, em oração, mas sempre subordinados à Sua vontade soberana; e, depois, agir conforme a essa vontade revelada. Foi o que Jesus fez.

Hora de agir - A Bíblia nos fornece um exemplo clássico de quando a hora é de agir e não de orar. É o de Moisés, acampado com todo o povo de Israel diante do Mar Vermelho, depois da saída do Egito. Deus mesmo tinha conduzido Moisés e o povo para aquele lugar, mandando-os que acampassem diante do mar. (Ex. 13:17-14:1), Sobre isto não havia dúvidas. Mas, aos olhos humanos, não parecia ser este o melhor lugar. E quando o exército de Faraó se aproximou, os filhos de Israel temeram, pois se viram como que numa armadilha, e clamaram ao Senhor (Ex. 14:10). Moisés procurou acalmá-los, certo do livramento de Deus (Ex. 14.13-14). Não lhe faltou fé. Mas, por alguma razão, clamou ao Senhor. Sua oração não é registrada, mas apenas a resposta dada a ela: "Por que clamas a mim? Dize aos filhos de Israel que marchem" (Ex. 14:15). Falta de saber como agir? De coragem? Não sabemos. O que sabemos é que, segundo a resposta de Deus, a hora era de agir e não de orar.

Em situação muito mais difícil do que as que normalmente experimentamos em nossa vida cristã, agora que temos toda a revelação escrita, Deus esperava que Moisés soubesse melhor o que fazer. Marchar era, naquela circunstância, a única solução para o problema, ainda que fosse para dentro do mar. Ou Moisés esperava um outro tipo de milagre, que não exigisse a ação humana e a confiança nAquele que ia adiante deles? (Ex. 13:21). Agir de acordo com a Palavra de Deus sempre requer fé e coragem, mas é o único caminho seguro. Às vezes somos tentados a esperar que Deus mude as circunstâncias sem nenhum custo para nós, e a oração pode muito bem ser usada para esse tipo de pedido. Deus abriu caminho pelo mar, mas não tornou os egípcios amigáveis. Na vida cristã, assim como nas decisões eclesiásticas, Deus pode provar nossa coragem e confiança nEle através de decisões difíceis de tomar, e a oração não deve ser usada como meio de escape, mas sim de sustento.

3. A tolerância é uma forma de erro.
Finalmente, outra lição a ser aprendida desses fatos da história é que a tolerância é uma forma de omissão que não contribui para a solução dos problemas. Muito ao contrário, ela é um grande mal em matéria doutrinária.

Os números - O grupo que representava a ala chamada liberal, na reunião do Sínodo de 1940, era composto de, no máximo, 7 ministros. Participaram desse Sínodo 44 ministros e 61 igrejas. Isto significa que menos do que 7% dos oficiais presentes eram, de forma velada ou clara, liberais. O restante se dividia entre os conservadores de militância, os conservadores não militantes e os que se chamavam "moderados". Dentre os militantes, só 5 ministros (um deles já jubilado) e 11 igrejas assumiram, naquele ano, a corajosa decisão de desligar-se do Sínodo. Foram os que formaram, em 27 de Junho, o 1º Presbitério Conservador.

Os "moderados", também em inexpressiva minoria, se caracterizavam por defender a permanência dos liberais em nome da caridade cristã e do espírito de tolerância, para não dividir a Igreja. Essa foi a corrente vitoriosa. Trouxe para o seu lado não só a grande maioria, formada pelos que eram conservadores não militantes, como também, pelo menos na hora da votação de sua proposta, até os conservadores de militância, já que a fórmula foi aprovada por unanimidade. Só mais tarde alguns perceberam o que tinham aprovado e mudaram sua posição.

A grande maioria era formada, portanto, pelos conservadores não militantes, que poderíamos chamar de "teologicamente" tolerantes. Estes decidiram a questão. Para não quebrar a unidade da Igreja preferiram fazer concessões à sua posição doutrinária. Em nome da paz, comprometeram a teologia.

Cuidados com a firmeza doutrinária - Podemos ou devemos fazer tais concessões? Em nome da paz ou da unidade podemos tolerar desvios doutrinários? Pode haver paz e unidade eclesiástica sem unidade doutrinária? Esta é a questão que está por trás da história de nossa Igreja, e que determinou a sua origem. Nossos antecessores entenderam que não, que não é bíblica nem conveniente tal atitude. Não produz a verdadeira unidade da Igreja, nem a sua paz. Por isso, fizeram inserir na Constituição e Ordem da denominação que fundaram a obrigatoriedade de um compromisso que ministros e presbíteros têm que assumir, quando são ordenados ou aderem à Igreja, de que deixarão espontaneamente todos os cargos que estiverem ocupando e renunciarão suas funções, se vierem a ter dúvida quanto à inspiração da Bíblia na sua integridade e aos Símbolos de Doutrina aceitos pela Igreja (Confissão de Fé, Catecismo Maior e Breve Catecismo de Westminster). É uma posição radical? Certamente que sim. Mas a Igreja não pode contentar-se com menos que isso, se quiser ser conservadora.

Essa mesma Constituição e Ordem declara, na sua Introdução Geral, inciso 3: "A Igreja tem como princípio denominacional o reconhecimento de que a adoção rigorosa e a defesa intransigente das doutrinas reveladas nas Santas Escrituras, e sistematizadas nos Símbolos de Fé por ela aceitos, constituem a base fundamental de toda a vida cristã, o motivo único e permanente de sua pregação e o caminho natural de conduzir o homem à salvação em Cristo. É, pois, uma igreja rigorosamente ortodoxa". A própria Constituição estatui, no artigo 239, que, na sua parte fundamental, isto é, na Introdução Geral que inclui o texto acima citado, ela só pode ser mudada na forma, "porque qualquer alteração na essência implicará na dissolução automática da Igreja Presbiteriana Conservadora do Brasil". Todos esses cuidados foram tomados para que a Igreja preservasse a sua característica e identidade. A tolerância doutrinária não pode ser tolerada.

O ensino bíblico - Por que não podemos ser tolerantes em matéria de doutrina? Porque a Bíblia não permite ser. Paulo, que fazia concessões em práticas litúrgicas e cerimoniais, (veja Atos 21:20-26) era intolerante quando o que estava em jogo era a integridade da doutrina. Não cedia um centímetro naquilo que chamava de "seu evangelho". Aos cristãos da Galácia advertia: "Mas, ainda que nós, ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema" (Gl. 1:8); aos de Roma aconselhava: "Rogo-vos, irmãos, que noteis bem aqueles que provocam divisões e escândalos, em desacordo com a doutrina que aprendestes; afastai-vos deles" (Rm. 16:17); aos de Corinto censurava: "Se, na verdade, vindo alguém prega outro Jesus que não temos pregado, ou se aceitais espírito diferente que não tendes recebido, ou evangelho diferente que não tendes abraçado, a esses de boa mente o tolerais" (2 Co. 11:4) e ao ministro Timóteo dizia: "Se alguém ensina outra doutrina e não concorda com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo, e com o ensino segundo a piedade, é enfatuado, nada entende, mas tem mania por questões e contendas de palavras..."(2 Tm. 6:3-4).

A questão em debate à luz da Bíblia - A doutrina das penas eternas não foi criada pela Igreja. Foi o ensino claro de Jesus. Faz parte daquilo que Paulo chama de "sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo". Em Marcos 8:47-48 lemos essas palavras de Jesus: "E se um dos teus olhos te faz tropeçar; arranca-o; é melhor entrares no reino de Deus com um só dos teus olhos do que, tendo os dois, seres lançado no inferno, onde não lhes morre o verme, nem o fogo se apaga" Em Mateus 18:8 e 25:41 Jesus chama o inferno de "fogo eterno"; e em Mateus 25:46, no mesmo contexto, o fogo eterno ou castigo eterno é posto em justaposição à vida eterna: "E irão estes para o castigo eterno, porém os justos para a vida eterna". Uma boa exegese destas passagens não permite outra interpretação que não seja a da eternidade das penas no inferno, assim como a da eternidade da bem-aventurança no céu". Se aceitamos o ensino de que a vida é eterna, a morte (ou castigo ou destruição - palavras sinônimas teologicamente) também tem que ser eterna. A mesma palavra grega (aijwvnion- eterno ou eterna) é usada tanto para a vida eterna (zwhVn aijwvnion), como para o castigo eterno (kovlasin aijwvnion). Ambas as coisas estão ensinadas no mesmo contexto e no mesmo sentido.

Em Marcos 3:29 Jesus diz: "Mas aquele que blasfemar contra o Espírito Santo não tem perdão para sempre, visto que é réu de pecado eterno". Aqui, novamente, a mesma palavra (aijwvn) é usada para descrever tanto a eterna impossibilidade de perdão como o pecado eterno. Que seria pecado eterno sem castigo eterno? Que sentido teria a expressão? Se os ímpios se aniquilam não há castigo eterno nem pecado eterno.

A eternidade das penas também fazia parte do ensino de Paulo, como não poderia deixar de ser, já que a revelação bíblica não se contradiz. Seu evangelho era o de Jesus. Em Romanos 2:7-8, onde contrasta a "vida eterna" (zwhVn aijwvnion) com "ira e indignação". e em 6:23, onde a "morte" é contrastada com a "vida eterna" (zwhV aijwvnio"), certamente está implícita a idéia de eternidade de ambas as situações. Mas é em II Tessalonicenses 1:8-9 que a doutrina está claramente ensinada. Falando dos que "não conhecem a Deus" e "não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo", ele diz: "Estes sofrerão penalidade de eterna destruição, banidos da face do Senhor e da glória do seu poder". A expressão aijwvnion é aqui usada para descrever a natureza da destruição. "Destruição" (o[leqron) no sentido teológico não é cessação da existência, mas separação de Deus e castigo eterno.

Judas também fala dos anjos que não guardaram o seu estado original e que são mantidos em "algemas eternas para o juízo do grande dia" e de Sodoma e Gomorra, cidades que "são postas para exemplo do fogo eterno, sofrendo punição" (Judas 6-7). Mais adiante, no v. 21, ele fala da "misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, para a vida eterna". Também aqui "fogo eterno" (puroV" aijwnivou) é contrastado com "vida eterna" (zwhVn aijwvnion) e o mesmo adjetivo é usado para ambos.

O argumento fundamental não se baseia no sentido isolado do termo aionios (aijwvnio"), que pode significar "eterno" no sentido de "sem fim" ou não, dependendo do contexto, mas baseia-se no seu uso nessas passagens. Se elas ensinam que a vida é eterna, isto é, sem fim, como cremos, então elas ensinam que a morte (ou penalidade) também é eterna, sem fim. A mesma natureza é atribuída a ambas, nos textos que tratam do assunto.

A importância da questão - Aceitar ou não a doutrina das penas eternas não é uma questão sem importância. A doutrina fundamental toca o coração do evangelho. Negá-la ou ter dúvidas sobre ela é negar o evangelho de Cristo ou duvidar dele. Não é questão secundária que possa ser tolerada. Rejeitar a doutrina por considerá-la imprópria ao caráter de Deus é querer determinar quem Deus é ou deva ser, de acordo com o nosso critério. É fazer Deus à nossa imagem e semelhança. Não temos o direito de questionar o amor de Deus ou qualquer de Seus atributos pelos nossos padrões. Os que acham que Deus não pode condenar alguém eternamente ao inferno, porque é amor, não têm uma apreciação correta do pecado, nem da justiça de Deus, nem do sacrifício de Cristo. Se o pecado pudesse ser pago e a condenação extinta após algum sofrimento no inferno, Deus teria sido injusto para com o Seu Filho, por impor-lhe tão alto preço de redenção. O deus dos que negam essa doutrina é bom para o ímpio, mas cruel para com seu próprio filho. Estranha teologia!

A tolerância não se estendeu apenas aos que negavam essa doutrina. Havia quem acreditasse na possibilidade de salvação além túmulo, como vimos, e cuja renúncia, de moto próprio, por "sentir-se fora da letra e do espírito do Sínodo", foi grandemente lamentada. Isso mostra que a tolerância em pontos considerados de menor importância doutrinária (existe isso?) leva também à tolerância em pontos "maiores", ou seja, abre a porta para todo e qualquer tipo de erro. Um abismo chama outro abismo. Uma negação ou dúvida nunca vem sozinha. Os que têm praticado esse tipo de "ortodoxia" têm colhido amargos frutos.

Devemos buscar a paz e a unidade, mas não a custo da verdade. Afirmar uma posição doutrinária sem exigir o seu cumprimento não é suficiente para a ortodoxia da Igreja. A paz e a unidade se mantêm com doutrina bíblica e constante vigilância. São lições que podemos aprender da história, para não repetir os seus erros.

(Publicado em "O Presbiteriano Conservador" em duas partes, nas edições de Setembro/Outubro de 1995 e Janeiro/Fevereiro de 1996)

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